quarta-feira, 28 de junho de 2023

AZAY-LE-RIDEAU: suprema harmonia de leveza, solidez, sonho e raciocínio

Azay-le-Rideau refletido na água ganha em beleza
Azay-le-Rideau refletido na água ganha em beleza
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








As águas plácidas do laguinho tão marcado pelo azul do céu e pelas árvores frondosas, refletindo o castelo de Azay-le-Rideau transmitem uma sensação paradisíaca.

Aquilo que é espelhado pela água toma um caráter de beleza celeste, de sonho, de irreal, de mundo das maravilhas, para dizer tudo numa palavra só, de paraíso perdido.

Tudo quanto se reflete ganha em beleza.

Azay-le-Rideau dá uma imagem de si mesmo sobre a água que vai muito além de sua beleza real, aliás, nada pequena.

Porém, sua maior beleza está na ideia originalíssima de construí-lo numa minúscula ilha sobre o rio Indre.

Azay-le-Rideau flutua todo leve sobre a água: ele é uma fantasia, uma coisa irreal, é um sonho.

O palácio merece ser considerado numa noite bonita de luar com as janelas, as mansardas, tudo aceso.

Podemos imaginar saindo de dentro os ecos de uma festa: os risos, a música, os perfumes, as luzes que tremem sobre o espelho d’água.

Tem-se a sensação de uma nau em que se leva uma vida de elevação, de requinte, de distinção, de nobreza, de grande classe.

Em suma, uma vida completamente diferente da vida contemporânea.

Veja vídeo
Azay-le-Rideau:
suprema harmonia
de leveza e solidez,
de sonho e raciocínio
Se há algo que é o contrário de um arranha-céus esmagador e de um prédio futurista escarrapachado no chão, se há algo de contrário ao cimento armado, é bem exatamente Azay-le-Rideau.

Ele parece não ter base e flutuar completamente na água.

Tudo nele é harmonia posta pelo espírito francês.

Ele foi construído entre 1518 e 1527 sobre uma fortificação antiga, por Gilles Berthelot, tesoureiro do rei Francisco I e alcaide de Tours.

As fortificações fingidas e as torres de menagem medievais deram um ar de nobreza tradicional ao tesoureiro do Rei.

Foi preciso que ele tivesse um ar muito medieval e as torrezinhas agudas contribuem muito para dar o porte de uma velha fortificação medieval.

Azay-le-Rideau na noite
Azay-le-Rideau na noite
O último eco de castelo é dado por torreões, que sugerem o resto de uma velha fortaleza medieval que, entretanto, não existiu.

Os torreões sugerem algo de sólido, atarracado, grande e que leva à sensação de estabilidade ao último ponto.

O misto de firmeza, estabilidade e delicadeza apresenta um contraste harmônico de qualidades opostas que acentuam seu encanto.

A extrema delicadeza se soma à estabilidade máxima com uma leveza diáfana.

O palácio não toca na terra, mas se conecta com ela por uma ponte.

E, em mais um contraste encantador, o palácio-castelo está envolto por uma arborização que parece puramente silvestre.

O palácio-castelo de sonho fica no meio do mato! Mas, que mato penteado, trabalhado, civilizado!

Se não tivesse mato, mas apenas grama, perderia o contraste.

Tudo parece espontâneo, mas na realidade tudo foi estudado com uma sagacidade extraordinária para produzir um efeito de conjunto.

Azay-le-Rideau palácio não toca na terra
Azay-le-Rideau palácio não toca na terra
Tudo foi feito com uma tal perfeição que a noção de harmonia nasce sem que a maior parte das pessoas possa discernir de onde ela nasceu.

O sumum do bonito da harmonia consiste, exatamente, em que a pessoa não possa definir no que é que essa harmonia consiste.

É necessária muita atenção e muita explicitação para se definir no que é que a harmonia consiste.

Azay-le-Rideau é uma sinfonia de harmonia que de início dá entusiasmo, mas depois resiste a uma longa indagação.

Por quê? Porque a análise dele satisfaz o espírito.

Azay-le-Rideau não produz impressões imediatas, violentas e sensoriais, mas comunica uma ordenação razoável e raciocinada, que satisfaz de modo repentino e profundo em virtude de algo ótimo e discreto que repercute aprazivelmente nos sentidos.

O castelo – ou, melhor, o palácio, pois nunca foi fortaleza – fica na comuna do mesmo nome, na França.

Quarto de dormir em Azay-le-Rideau
Quarto de dormir em Azay-le-Rideau
Seu construtor, Berthelot, caiu na desgraça do volúvel rei Francisco I e teve que fugir. Nunca voltou, deixando-o incompleto.

O palácio mudou muito de mãos, até que no século XX foi adquirido pelo governo. Ele é rodeado por um distinto parque à inglesa, com muitas espécies de árvores, especialmente coníferas exóticas.

No século XIX, o romanticismo cantou o charme de Azay-le-Rideau. Honoré de Balzac falava dele como “um diamante facetado colocado no Indre”.

Pousando no rio, emergindo da banalidade pantanosa, resplandece como um relicário e ao mesmo tempo um recanto de delícias que não parecem ser desta terra, mas do Paraíso.











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quarta-feira, 14 de junho de 2023

O risco na vida dos homens dos castelos

Castelo de Cheverny, armas e armaduras
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








O jovem pajem que ia ser senhor feudal quando seu pai morrer, era esbelto, magro, fino, com o corpo ereto, com a fisionomia pronta para a aventura, de espada à cinta, pronto a montar um corcel e a correr para fazer uma viagem de um mês, no meio de todas as aventuras, e voltar carregado de glórias ou de ferimentos.

O homem da plebe não tinha obrigação de combater, não tinha vocação de herói.

Eles apenas tinham que ser produtivos.

Nas iluminuras e vitrais medievais aparecem tranqüilos, gordões e pacíficos.

O fidalgo não. Ele era feito para todos os brilhos, glórias, riscos, e para a qualquer momento, despencar em qualquer precipício!

Riscos da vida de um fidalgo? Mas todos! Todos!

Inclusive de um inimigo, que ele podia encontrar na esquina daquelas ruas tão sinuosas das cidades da Idade Média, com quem ele trava desde logo um duelo de morte, que seria o quinto do dia...

Depois ele vai repousar em sua cama, se não vai já de uma vez no caixão funerário...

Castelo de Chenonceaux, quarto
De manhã, ele nunca sabe onde vai repousar à noite.

A menor preocupação é o repouso. Ele não quer saber se ele descansará, ele quer saber se ele vencerá!

Um homem construído com essa tempera, podia facilmente ser o objeto da admiração e o modelo daqueles sobre os quais exercia a autoridade.

Mas ele podia também ser, facilmente, o terror daqueles em quem mandava

Por que terror? Porque não era raro eles construírem castelos em montanhas, dominando a passagem de rios ou estradas.

Castelo de Pfalz, no Reno, Alemanha
E quando eles percebiam de longe que vinham comboios de barcos de comerciantes, eles desciam depressa, abordavam os barcos, levavam os comerciantes para a cadeia e ficavam com tudo quanto eles traziam.

Era o terror do comércio, mas enchia a despensa do senhor feudal.

Depois, o próprio senhor feudal vendia aquilo que tinha tomado demais.

E com o dinheiro mandava comprar armas, reconstruir muralhas, entreter o castelo. Assim ia a vida...

Eram os senhores feudais, muitas vezes, bandidos.

E nada desdoura mais a condição de senhor do que ser bandido.

Nada é mais aviltante do que ser bandido, do que roubar de um pobre homem desarmado o produto de seu trabalho.

Mais sobre castelos de bandidos.

Cadeia! Senhores feudais desse jaez deveriam ir para a cadeia

A Igreja apostrofou tremendamente esses maus senhores.

Mas, ao mesmo tempo, foi dando jeitos neles.

Fortaleza de Carcassonne, mandada construir por São Luís IX, rei da França
Um desses jeitos consistiu em enviá-los para as cruzadas.

Por isso nós vemos nos famosos sermões do Beato Papa Urbano II e de São Bernardo, alusões aos terríveis crimes que precisam ser expiados.

E a expiação consistia em ir a Terra Santa e descarregar sua força no ímpio pagão invasor.

E assim muitos foram tocados pela graça, deram suas vidas, repararam seus pecados e ganharam a vida eterna!

Com os séculos, até esses senhores díscolos foram sendo amansados e se integraram por casamentos e alianças na nobreza regrada e que sintonizava com a moral do Evangelho.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 2/6/84. Sem revisão do autor)

Vídeo: Castelos e abadias da França desde avioneta




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