Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Neuschwanstein: grandeza harmônica afagante e ameaçadora

O castelo de Neuschwanstein foi construído pelo rei Luís II da Baviera (1845-1886) (foto).

Ele corresponde a uma concepção romântica ou wagneriana da Idade Média. Mas, é impossível não reconhecer muito valor, sobretudo à realização que ela aqui tem.

Luis II entrou para a história como o rei ao mesmo tempo casto e fabuloso, duvidoso e crapuloso, herói e lamacento. Foi uma figura ambígua que marcou a história da Baviera.

No castelo nós vemos um dos aspectos bonitos da alma do rei.

Ele era apaixonado pelas coisas medievais. E mandou construir este castelo com uma nota característica: na Idade Média não se construíam castelos assim.

E ele, ou o engenheiro que trabalhou sob orientação dele, imaginou um castelo não precisamente medieval, mas com todo o espírito medieval. De maneira que tem qualquer coisa que transcende o gótico.

No que? No senso de batalha, de combate e de dignidade afidalgada do homem medieval.

O castelo fica num panorama ultra favorável. Há no fundo um longo movimento montanhoso. E o castelo está num píncaro em relação às circunjacências, tendo como fundo lagos de água puríssima.

Neuschwanstein Também há uma floresta plantada que não é floresta virgem. Mas é tão densa e vigorosa que parece floresta virgem

Bem no meio está o castelo. Ele como que recebe sua força dos montes que desembocam nele, dominando tudo o que fica abaixo de um modo soberano.

Deita uma garra sobre a natureza como um rei que procede de uma genealogia fabulosa e domina os seus povos de um modo altaneiro.

Neuschwanstein é um verdadeiro herói que olha do alto os panoramas, e que se sente superior a todo o panorama que considera.

A primeira impressão que sugere Neuschwanstein é produzida pelo jogo das torres.

Sobretudo a mais alta, que desafia os montes que estão atrás, como quem diz: “eu não me contento apenas em jugular o que está abaixo, eu disputo, eu rivalizo com aquilo que está acima de mim, eu estou no píncaro do orbe, acima do que não há ninguém.”

Neuschwanstein, torre principalEssa torre é muito alta e se divide em motivos ornamentais. Tem um telhado cônico, muito pontudo também, que dá a sensação de um píncaro do universo.

Ela tem ameias e janelinhas. É uma torre própria para ser habitada.

Dentro pode haver um quarto de pedra com uma grande lareira, onde se queima madeira no inverno, com um vitral.

Lá a gente sente os ventos uivando no inverno ou experimenta a placidez da primavera ou do verão. É bem diferente de morar num prédio de apartamentos.

O edifício principal é constituído de três andares.

O castelo propriamente dito é o traço de união de duas fileiras que terminam por torres também. Essas torres não são iguais. Uma é a primogênita da outra.

O pátio do castelo recolhe toda a atmosfera de grandeza como numa taça. O pátio parece um grande terraço de onde se domina a natureza.

O corpo central de Neuschwanstein é um edifício de pedra ou tijolo avermelhado, com um portal magnífico que dá para um terraço, onde há uma última torre.

O conjunto das torres passa a idéia de hierarquia. Elas formam uma verdadeira sinfonia.

É a grandeza que se desdobra em graus até tocar os homens menores, se abrir para eles, afagar quem quer entrar com boa intenção.

Mas é uma ameaça para quem quer entrar com má intenção.

Porque este castelo tem qualquer coisa de fortaleza.

Quem entra de acordo com a vontade do dono com reta intenção, não há maravilhas que não possa encontrar aí dentro. Mas há uma ameaça para o criminoso inimigo.

NeuschwansteinA gente sente a existência, concreta ou possível, de sinistras masmorras embaixo, para castigar o crime.

É um castelo altamente simbólico.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 2/7/1970. Sem revisão do autor.)


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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Em torno do castelo se efetivou a promessa divina: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo"

Le Lude, França
Desde a “motte” primitiva, não encontraremos no castelo nada que lembre príncipes românticos nem torvos tiranos.

Há apenas, porém no mais alto grau, o ambiente para uma vida austera, temperante e cheia de espírito de sacrifício.

Através dos séculos, enquanto o castelo evolui — de um lado tornando-se mais poético e cheio de encanto, e de outro mais severo e importante — a vida nele continua no mesmo teor.

Porque na Idade Média os homens viviam com os olhos postos no alto, na eternidade, em Deus, e a existência terrena era para eles apenas uma provação transitória, na qual deveriam ajudar-se mutuamente como membros da mesma família — a família de Deus.

LochesEste é o sentido profundo da base familiar da sociedade feudal: uma cidade onde todos os homens, por mais humildes que fossem, tinham na estrutura social um lugar digno de filhos de Deus.

Onde os que estivessem por cima tutelavam e protegiam os que estivessem por baixo; e onde reinava entre os homens o espírito de caridade, respeito e união que existe numa família verdadeiramente católica.

Era o oposto, o contrário da civilização socialista, que nivela todos os homens e os deixa despersonalizados, isolados, desamparados ante o Estado todo-poderoso, sem vínculos que os unam, sem o carinho e o amor de que necessitam.

A glória do feudalismo lhe vem de ter sido feito por homens que foram fiéis à graça.

Quando os bárbaros arrasaram tudo, os primeiros senhores feudais poderiam ter-se deixado esmagar; era até normal que ante tal onda de devastação eles fraquejassem, como se deu em tantas circunstâncias análogas através da História.

Mas Deus lhes pediu um supremo esforço para que, sob o influxo da Igreja, da barbárie surgisse uma nova civilização de esplendor incomparável.

Warwick, interiorVerdadeiros cristãos, eles — e tantos outros depois — corresponderam à sua vocação.

Reagiram, enfrentaram a adversidade.

Com o suceder das gerações, aplicadas todas no mesmo esforço dirigido e fecundado pela Igreja, construíram a civilização cristã medieval.

O feudalismo foi, acima de tudo, a realização da promessa divina: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

Windsor, pátio interno do castelo real

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Desde seu grande castelo, o rei vela por todo seu povo

Chillon, castelo, Suíça
Na última fase do progresso medieval, deixou de existir o perigo freqüente e iminente de invasões. Os países de um modo geral ficaram pacificados.

Então, o castelo feudal perdeu o sentido de refúgio e abrigo para a população e rebanhos. Ele ficou residência do senhor, de sua família e de sua parentela.

Mas conserva o aspecto militar, pois continua sendo acima de tudo uma fortaleza. Eles ficaram como um reduto inexpugnável que dava ao barão força e prestígio. Para o feudo uma garantia da manutenção da paz e um símbolo de seu orgulho local.

No seu apogeu, o castelo feudal não é mais um simples conjunto de muralhas protegendo as habitações, mas um todo arquitetônico pujante e homogêneo, que apresenta para o exterior muros escarpados, torres, seteiras e ameias, formando a defesa contra agressões.

Dentro há apartamentos, claustros e pátios, nos quais se desenrola a vida social.

Warwick, interior do castelo, salãoEnquanto a técnica militar muito desenvolvida o protege exteriormente, as artes decorativas o embelezam por dentro, oferecendo ambiente propício ao florescimento cultural, que atinge um alto nível.

Vai ficando para trás o tempo em que os castelos se mantinham isolados uns dos outros.

A hierarquia de proteção e devotamento, existente entre o senhor e seus súditos, foi aos poucos se estabelecendo também entre senhores menores e outros mais poderosos.

Estes últimos começam a agrupar sob sua autoridade, pelos mesmos laços de fidelidade, não somente seus vassalos e servos imediatos, mas também outros barões, os quais, conservando intacta sua autoridade sobre seus homens, se tornam eles mesmos vassalos.

Chillon, interior do castelo medievalO senhor feudal mais importante, por sua vez, faz-se súdito de outro ainda maior, e assim por diante.

Formaram uma imensa pirâmide de suseranias desiguais, dispostas hierarquicamente num escalonamento progressivo, até chegar ao rei.

Este era o barão supremo, o suserano de todos os suseranos, o senhor feudal de todos os senhores feudais, o pai de todos os pais.

Do “donjon” de seu castelo, ele vela pelo seu feudo e por todos os feudos de seus vassalos, por toda a nação.

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

No castelo medieval: troca de bons ofícios

Porto de MósPelo mesmo processo através do qual a família — crescendo, multiplicando-se, agregando novos membros — veio a formar a mesnada, esta deu origem ao feudo.

O feudo é pois o estágio mais evoluído da organização social de base familiar.

Compreende o barão e sua família próxima, os ramos cadetes de sua estirpe e vassalos nobres que lhe prestam auxílio, recebendo em recompensa cargos, terras ou outros bens e formando a sua parentela.

Esse todo constituía a nobreza, cuja missão era governar o feudo e combater para a sua defesa.

Warwick, capela do casteloOutra classe constitutiva do feudo era o clero — capelães, monges e párocos — cuja existência era consagrada à oração, ao ensino e à assistência aos desvalidos.

Por fim o povo, formado pela burguesia (comerciantes e artesãos) e pela plebe (agricultores e servos), cuja missão era produzir o necessário para o sustento de todos.

Semelhantes a essa era a organização dos feudos eclesiásticos, ou seja, daqueles cujo senhor era o bispo ou o abade, e, no caso das Ordens femininas, a abadessa.

O castelo feudal evoluiu.

Dentro da primeira muralha protetora, entremeada de torres e circundada pelo fosso, estão a capela e as habitações de soldados, não mais construídas em madeira, mas em pedra e tijolo.

A segunda área, separada da primeira por uma nova muralha com fosso e pontes levadiças, forma uma segunda linha de defesa, abrigando as residências do senhor e sua família e dos nobres que lhe prestam serviço.

Daroca, Castela, Espanha.A segurança do castelo permite que o barão more num belo e amplo palácio, e não mais na torre de menagem.

Esta permanece, atrás de uma terceira muralha, como último reduto da defesa e posto de vigia.

Geralmente o castelo fica no alto de uma elevação, e a torre de menagem é colocada do lado da encosta mais escarpada, o que torna mais difícil atacá-la.

O feudo se funda, como a família e a mesnada, no amor mútuo que une seus membros. O barão deve a seus súditos proteção, assistência e defesa. Ele vela por todos nas dificuldades e exerce a justiça quando surgem conflitos.

Sua autoridade porém não é absoluta. Os costumes têm no feudo força de lei, e o barão não pode, ainda que o queira, derrogar as praxes e modificar os direitos que a tradição consagrou.

Torrelodones, EspanhaAo seu lado, sua esposa é mãe para todos os súditos, aos quais auxilia ou aconselha nas suas necessidades, dedicando-se especialmente a ensinar e educar as jovens, até o casamento.

Os súditos devem servir com amor e fidelidade ao senhor, seguir seu conselho nas questões importantes e pedir seu consentimento para se casarem, tal como o próprio senhor feudal deverá pedi-lo ao nobre ou ao rei, do qual é ele mesmo vassalo direto.

Os súditos de mais destaque colaboram com o barão na administração da justiça e nos conselhos reunidos para as grandes deliberações.

Os deveres recíprocos estão traçados minuciosamente em juramentos religiosos, cujos textos até hoje se conservam.

Os vassalos viam a fidelidade como um dever, mas também como um benefício: “Gente sem senhor está em muito má situação” — diz um provérbio da época.

Gastón Febus com caçadores, idade mediaDe fato, quem não tem senhor deve enfrentar sozinho as lutas e agruras da vida, nesses tempos ainda tão ásperos.

Há no feudo uma hierarquia muito variada e intrincada, e não apenas a autoridade total de um só senhor sobre uma multidão de súditos iguais.

Os nobres se dispõem em graus interdependentes, os trabalhadores podem ser súditos tanto diretamente do senhor como de algum de seus nobres, ou até de burgueses, e estes podem estar colocados na dependência deste ou daquele suserano.

Até entre os servos há uma hierarquia, com várias subordinações, havendo mesmo servos que o são de outros servos.

Os servos da gleba, dos quais tanto se tem falado, eram trabalhadores braçais fixados a uma terra que não podiam abandonar, mas da qual, em compensação, não podiam ser expulsos.

Tinham direito a proteção e auxílio e podiam exigir do senhor que os sustentasse nas épocas de crise, ao passo que em iguais circunstâncias os que eram livres chegavam a morrer de fome.

Sua condição, dura a princípio, mas aos poucos suavizada por influência da Igreja, não era uma escravidão, pois suas obrigações eram bem delimitadas e o senhor não tinha autoridade absoluta sobre eles. Era mais ou menos como um contrato de enfiteuse vitalício e irretratável por ambas as partes.

Os servos constituíam um grau, embora ínfimo, da estrutura familiar que formou a civilização feudal. Por isso repetiam-se entre eles e seus senhores os mesmos sentimentos de união, de devotamento e de amor que eram a base da vida social.

Nas crônicas do senhor Amis lê-se que, tendo ficado leproso, foi expulso do castelo por sua esposa, repelido pelos camponeses e posto para fora até do hospital de caridade.

Dois servos da gleba, porém, deixaram tudo para o seguir, cuidando dele como de um pai, chegando a mendigar para sustentá-lo.

Na Idade Média houve muitas vezes o espetáculo admirável de servos levantando-se em massa para irem libertar seu senhor, caído prisioneiro.

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

O barão, senhor do castelo, dá a vida pelos súbditos e estes o seguem com amor

Berlanga de Duero, Soria, Espanha
É difícil sintetizar como era a vida nos castelos medievais, porque ela era extremamente rica e variegada, variando muito segundo os locais. Em cada lugar era, em verdade, inteiramente diferente. Mas há alguns traços comuns.

No castelo e nos arredores vive a pequena pátria que o espírito feudal formou em torno do barão.

Ela tem seus camponeses e artesãos, que são também seus soldados; seu tribunal, que é presidido pelo senhor; seus costumes, suas tradições de honra e de heroísmo, das quais se orgulha; uma insígnia, um lema e até um nome, que é o do próprio barão.

É um todo orgânico e único, que protege seus membros contra o mundo inimigo.

Wijnendael, BélgicaGraças ao senhor feudal que por eles vigia, os camponeses se sentem protegidos, podem arar, semear e esperar a colheita sem medo de serem surpreendidos por bandidos que os pilhem e escravizem.

Diz uma crônica do tempo que os barões, “para estarem sempre prontos, têm seus cavalos na sala onde dormem”.

Pouco a pouco, por via consuetudinária, vão se estabelecendo contratos. Em retribuição pela proteção que recebem, os camponeses e artesãos dão um tanto do que produzem, para sustentar o barão e sua família, e trabalham uns tantos dias por ano na reparação e conservação do castelo.

Os interesses de uns e outros são solidários; a prosperidade dos súditos é a do barão, que com ela se rejubila; das alegrias e do renome do barão participam os súditos.

O caráter essencial desta grande família, formada pela união íntima das famílias que a compõem, é o amor mútuo, profundo e devotado entre seus membros.

Amor filial e submisso dos súditos para com o senhor, amor paternal e protetor do senhor para com seus súditos. Uma das belas canções de gesta da época assim descreve os sentimentos do Conde de Artois, vencido numa batalha, ao ver seus homens que jazem por terra:

Sua mesnada está lá, morta, ensangüentada.
Com sua mão direita ele a abençoa,
Sobre ela se inclina e chora
E suas lágrimas correm até a cintura.


Montigny-le-Gannelon, FrançaAssim como no deserto floresce o oásis junto ao poço, também no princípio da era feudal, nos lugares onde havia homens de valor para erguer a “motte” e o castelo e se opor às arremetidas do inimigo, aí havia trabalho e progresso. Porém, onde não havia senhores fortes e obedecidos, tudo caía na anarquia.

E a França ia se enchendo desses núcleos isolados, formando uma constelação de pequenas soberanias que cresciam espontaneamente, por suas próprias forças, sem planificações de governos, mas com vitalidade e pujança que permitiam prever os esplendores da civilização cristã.

Até inimigos ferrenhos da ordem hierárquica medieval, como o soturno fundador do comunismo Karl Marx, reconhecem que nunca a vida dos operários foi melhor que na Idade Média.

De fato, como constata um comunista divulgador de Marx, (Henri Lefebvre, “Le matérialisme dialectique”, P.U.F., 1962), o senhor feudal tinha outro conceito de seu feudo. Ele não se perguntava quanto valia e qual a vantagem que podia tirar.

FrançaOlhando para suas terras, bosques, rios, prados, camponeses, aldeinhas ele pensava: estas são as terras pelas quais meus antepassados deram a vida; meu pai e eu mesmo brincamos naquele bosque quando éramos crianças; aqueles são meus camponeses e burgueses por cujos antepassados os meus deram a vida e reciprocamente; eu devo passar tudo isto inteiro e melhorado para meus filhos, e para os filhos deste povo que é minha família num sentido muito largo, porque a Providência quis unir nossa história.

Por isso quando acontecia de algum senhor feudal vender seu feudo, os sinos da igrejinha tocavam a finados. Como se alguém tivesse morrido. De tal maneira, isso era considerado uma desgraça, para os nobres e para o povo.

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Em volta do castelo da Idade Média, nobres protetores e plebeus obedientes formaram uma família social

Auzers, Cantal
Com o correr do tempo a família do “sire” que reina sobre o primeiro esboço do futuro castelinho chamado de “motte” se multiplica em novos ramos.

Estes continuam unidos ao tronco pelo espírito de solidariedade que os anima, pelo desejo de ver crescer a sua “pátria”.

Pois “pátria” significa a “terra onde estão enterrados os pais” (do latim pater=pai).

Os artesãos e lavradores também permanecem, de geração em geração, ligados à estirpe do seu senhor.

Todos continuam a reconhecer a chefia do filho mais velho do senhor, i. é, o primogênito.

Todos vêem nele o pai comum, sucessor daquele que foi “pai” e protetor de seus pais. Dão-lhe o nome de barão, título que na origem é bastante largo.

Pesteil, CantalEsta família maior, oriunda da família básica e conservando os caracteres desta, é a “mesnada”.

Algumas “mesnadas” se destacam por sua prosperidade, seu vigor, sua capacidade de resistir a ataques inimigos. Atraídos por sua fama, muitos que não se sentem em segurança em sua própria terra ingressam em seu seio, com suas famílias, encontrando ali a proteção de que necessitam e contribuindo para o seu fortalecimento e crescimento.

Com a “mesnada”, a “motte” evolui para o castelo ainda rudimentar.

Duas linhas de defesa o protegem: a primeira formada por um fosso e por uma paliçada de madeira assente sobre uma escarpa de terra, tendo na entrada um pequeno fortim avançado, a barbaça.

A segunda — separada da primeira por um fosso chamado liça, no qual havia às vezes hortas e jardins — é uma robusta muralha de pedra, entremeada de torres e circundada por um caminho de ronda, por sua vez protegido por um parapeito com ameias.

Almansa, Albacete, Castela, EspanhaAtravessa-se essa muralha por uma porta ladeada por duas torres, dotada de ponte levadiça e de uma grade de ferro que se move no sentido vertical.

Dentro do castelo há duas áreas.

Na primeira estão as habitações dos artesãos e os abrigos dos camponeses — que já não moram dentro, mas ao redor das fortificações — onde se refugiam em caso de ataque, com suas famílias, seus bens e seus animais.

Na segunda ficam as acomodações dos companheiros e parentes mais remotos, a pequena capela (em geral sede da paróquia, centro da vida espiritual e alma dessa comunidade) e a torre de menagem, residência do barão e de sua família mais próxima, que continua sendo o centro da resistência, o último reduto da defesa.

Sobre ela, dominando tudo, a torre de vigia. Enquanto o casario é de madeira, dando ainda a impressão de acampamento, a muralha, as torres e o imponente “donjon” já são de pedra, robustos e duradouros.

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

O primeiro esboço de castelo apareceu sem Estado, quando a família era o último reduto.

Castelo Pichon Lalande
No caos produzido pela decomposição do Estado após as invasões bárbaras, a família virou o último reduto dos homens.

A vida social se encerra no lar, pequena sociedade a princípio isolada, mas vizinha de outras iguais a ela, que aos poucos vão se agrupando para formar as primeiras coletividades.

Os homens que se revelam mais capazes tomam naturalmente a direção, capitaneiam a reação ante a natureza e os inimigos, organizam a defesa, a vida comum.

A hierarquia social renasce espontaneamente e a autoridade ressurge, numa comunidade formada por famílias, e que é por sua vez uma família maior, na qual o chefe será um pai comum que velará sobre todos.

Motte, ou castelo primitivo, desenho de Viollet-le-DucEste pequeno Estado familiar vive na “motte”, primeiro esboço do castelo, onde se alojam homens e animais, onde se guardam instrumentos de trabalho, colheitas e armas, moradia da família em tempos de paz e seu refúgio seguro em caso de perigo.

Desenhos de Viollet-le-Duc representam a “motte” típica.

Externamente é defendida por uma palissada de mourões pontiagudos e por um fosso com água, sobre o qual se baixa uma ponte levadiça.

Dentro estão as casas dos companheiros e servidores, os estábulos, celeiros e depósitos.

Ao centro uma elevação de terra, sobre a qual se ergue uma construção de madeira, em forma de torre — o “donjon” ou torre de menagem, a residência do chefe, do senhor.

Compõe-se de três andares, dos quais um ocupado pelo celeiro, outro pelas salas de estar e de dormir, e o terceiro, o mais alto, utilizado para posto de observação.

Chenonceux, capela e portariaAli o vigia passa os dias perscrutando o horizonte. Se pressentir algum perigo, dará o alarma, para que todos se recolham para dentro da “motte” e de lá organizem a defesa.

Se o ataque chegar a romper a palissada, ainda haverá o recurso de se refugiarem na torre de menagem — protegida por um segundo fosso com água, e com sua própria ponte levadiça — e de dentro dela continuarem a resistir.

A descrição ficaria incompleta sem uma referência aos “túmulos” (pequenos montes de terra colocados fora do fosso, como primeira linha de defesa) e ao círculo de pedras que delimita o espaço reservado às assembléias, nas quais, sob a direção do chefe, se tomam as deliberações mais importantes.

Neste pequeno mundo autônomo e auto-suficiente, o chefe é a suprema autoridade, é quem organiza o trabalho e a defesa. Ele é chamado “sire”, e sua esposa, “dame”.

O grupo aos poucos toma o seu nome.

A vida é simples e frugal. Cultivam-se as terras ao redor, e uma indústria rudimentar, doméstica, fabrica todo o necessário para a subsistência e também para proporcionar algum conforto.

Não há comércio. Só aos poucos começarão as trocas com os vizinhos. O homem cresce, trabalha, ama, sofre e morre no próprio lugar onde nasceu.

Antigo castelo do Louvre, erigido por São Luis reiEsta família ampliada é para seus membros a verdadeira pátria. Cada um a ama com amor vivo, porque a vê toda inteira ao seu redor, porque sente diretamente sua força, sua beleza, sua doçura.

Ela lhe proporciona uma proteção sólida e indispensável. Sem ela ele não sobreviveria, pois o mundo exterior é inimigo.

Nascem assim sentimentos profundos de solidariedade entre os membros.

A prosperidade de uns beneficiará os outros, a honra de uns será honra dos demais, a desonra de um recairá sobre todos. Estes sentimentos se fortalecerão à medida que a família crescer e progredir.

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Origem dos castelos da Idade Média: as invasões bárbaras deixaram as cidades em ruínas

Castelo de Fenis, Val d'Aosta, Sabóia
A França do século IX era um país em plena formação. Seus habitantes descendiam das tribos bárbaras convertidas no século IV por S. Remígio, e que com o suceder das gerações tinham ido civilizando-se sob a influência benéfica da Igreja.

O gênio poderoso de Carlos Magno havia unificado o país e lhe dera uma organização definida que, apoiando-se sobre os valores locais, ia formando uma sociedade orgânica, com um crescimento espontâneo, forte, vital.

Sobre esta civilização incipiente abate-se um cataclismo.

São invasões maciças de sarracenos pelo sul, de húngaros ferocíssimos pelo leste, e, piores que todos, de normandos vindos do norte em navios, com os quais não só pilhavam as costas como entravam pelos rios adentro.

Castelo de Coburg, AlemanhaEstas hordas saqueiam cidades e vilas, queimam as igrejas, devastam os campos, levam atrás de si multidões de cativos.

Por toda parte vêem-se cidades arrasadas, e nas ruínas só habitam animais selvagens.

Os soldados, incapazes de resistir, aliam-se aos invasores e pilham com eles.

A autoridade soberana perece, as lutas privadas entre indivíduos, famílias e grupos são infinitas, os mais fortes se entregam a violências; não há mais comércio, indústria, agricultura; todos os costumes, leis e instituições desmoronam; não há mais laços que unam os habitantes do país.

O Estado desaparece nessa imensa catástrofe.

Fugindo ao terror e à desordem, os homens buscam abrigo no fundo das florestas, no alto das montanhas, no meio dos pantanais — em lugares inacessíveis, onde a cupidez e a crueldade dos invasores não os atinja.

Reinmart el viejo, Codex Manesse, fol. 407rCidades, vilas e aldeias se dispersam, e cada qual foge para onde pode.

Cada qual, ou melhor, cada família. Pois a família é, neste caos, a única célula social que permanece intacta.

Tendo seu fundamento não nas leis, mas na ordem natural e no coração humano, enrijecida pela força sobrenatural da graça que a Igreja lhe comunica, ela é o único baluarte que resiste ao ímpeto da barbárie.

Dela partirá o trabalho de reconstrução social.

No seu refúgio a família resiste, se fortalece, torna-se mais coesa.

Animada pelo espírito católico que a vivifica, ela não se deixa esmagar pela adversidade, mas reage.

Obrigada a bastar-se a si mesma, cria os meios para se sustentar e se defender.

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Terça-feira, 24 de Março de 2009

O castelo medieval, jóia da Cristandade

Castelo na Aquitania
De dois modos costuma-se ver os castelos feudais. Ora é o suave e romântico solar dos contos de fadas, com suas torres brilhando ao luar, sua ponte levadiça baixando silenciosamente para deixar entrar o príncipe valente e formoso, que vem encontrar-se com a dama dos seus sonhos, enquanto o vigia soa a trompa e as notas maviosas se espalham pelo lago ao redor, etc.

Para outros é o tenebroso reduto da opressão de um tirano, com negras masmorras em que gemem servos desgraçados, cujas plantações foram destruídas pelas cavalgadas do senhor em alegres folgares de caça, ou pilhadas por sua hoste em rudes lides de guerra.

A verdade não está em nenhum destes extremos, clamorosamente contraditórios entre si.

Bannes, na DordogneO feudalismo na Idade Média foi suscitado pela Igreja.

Foi o espírito católico dos homens medievais que os levou a se organizarem numa sociedade como nunca houve mais perfeita.

Nem o romantismo dos trovadores, que marca a decadência do espírito medieval, nem as assombrações ridículas com que os inimigos da Igreja procuram denegrir as instituições da civilização cristã nos dão a verdadeira fisionomia do castelo feudal.

Castelo de Val, DordognePara compreendê-la, remontemos às suas origens e vejamos como os castelos surgiram, como evoluíram, como se formou a sociedade feudal de que eles são imagem.

Embora todas as nações da Cristandade tenham tido a mesma estrutura social, a evolução foi diferente em cada caso.

E a França foi um dos países em que o feudalismo atingiu seu apogeu.


(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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Terça-feira, 10 de Março de 2009

Castelo de La Brède: o encanto do castelinho e da vida da pequena nobreza


A maravilha do Castelo de La Brède consiste precisamente em ser micro.

Trata-se de um pequeno castelo francês. Não é um castelo de grande luxo, é uma habitação comum com proporções de um castelo.

Ele tem certa importância histórica porque nele morou o célebre ‒ e, aliás, malfazejo ‒ barão de Montesquieu. O castelo fica na Gironde, nas proximidades de Bordeaux.

A arquitetura de suas várias partes é um pouco singular. Ele tem um corpo grande, uma ponte levadiça, por baixo da qual corre água, de maneira que, suspensa, ninguém entra no castelo. Por fim, outro corpo de edifício numa ilhazinha autônoma ligada pela ponte levadiça. Há ainda uma terceira ilha.

Tudo é fortificado. Por qualquer lado, o que se encontra é uma fortificação. É um sistema de defesa do castelão e de sua família na hipótese de um ataque.

O lago ‒vê-se pelo traçado ‒ que é artificial, ou foi um lago natural muito retificado em seus contornos. Ele serve de fosso para o castelo.

Todas as janelas do castelo ficam a considerável altura da superfície das águas. De maneira que, até encostar um barco para subirem homens armados, estes facilmente podem ser atingidos pelos defensores postados nas janelas mais altas. E o ataque direto ao castelo fica difícil, para quem queira atingi-lo por água.

Então, o recurso do invasor é entrar pela porta. Mas ali encontra várias dificuldades.

Quem entra pela estrada tem que fazer baixar a ponte levadiça e travar uma batalha. Mas, suspendendo a ponte levadiça, a porta de entrada é quase inacessível. Quem quiser fazer o ataque desse lado é atingido pelas setas dos defen-sores da torre. E o telhado pontudo é feito para evitar que projéteis incendiados caiam sobre os defensores

O quadrilátero é um segundo campo de batalha. Se os defensores da fortaleza forem derrotados na primeira ilha, eles fogem e se fecham na segunda e começam mais uma batalha. Se eles forem derrotados, eles fogem para a terceira e começam outra batalha.

Ou os agressores são em número extremamente grande ou esse castelo é inconquistável.

É um castelo estritamente funcional. Todas as partes dele foram calculadas para uma função militar muito definida.

Mas, apesar dele ser estritamente funcional, não lhe falta grande beleza e encanto. E isso não obstante o fato de se tratar de uma construção pobre.

De onde vem essa beleza e esse encanto? Qual é o valor artístico desse castelo construído manifesta-mente com a preocupação principal de ser uma fortaleza e não de ser uma bonita construção?

O primeiro elemento de beleza é dado pelas águas. Tudo que fica à beira da água sobe de valor.

Se o castelo estivesse no meio do campo, ele perderia enormemente. Mas a água lhe dá uma moldura de irrealidade.

O céu e o castelo se refletem na água e toda a arquitetura se nobilita.

Há um modo digno e plácido do castelo dominar a água, que lha dá uma distinção aristocrática tranqüila. Por esta forma, o castelo sai da linha do vulgar.

De outro lado, é bonito que o contorno da ilha não seja regular. Há uma inopinada doçura nessa forma. E o que essa forma tem de achatarrada é vantajosamente compensado pelas torres.

Nada menos do que seis torres ou cúpulas se levantam no castelo. A torre principal domina todo o castelo com a sua massa. As pequenas torres lhe fazem cortejo. E o telhado superior dá toda a impressão de pertencer à capela do castelo, encastoada no corpo da construção.

Por outro lado, as duas ilhotas de forma tão diferente com uma torre separada têm um quê de inde-finivelmente digno e plácido apesar do seu ar de fortificação.

A torre flanqueada por duas outras menores, que lhe dão como que um apoio, e que se perde nas águas, fica distanciada do resto.

E depois, muito inopinadamente, há uma ilha com forma de quadrilátero, realçada por um arbusto e um grande gramado verde, com a beleza dos gramados europeus.

O conjunto dá um ar de calma, dignidade, altaneria, distinção, harmonia, mas ao mesmo tempo de fantasia que distraem a vista.

É o charme, o encanto, do pequeno castelo e da pequena vida de castelo, da pequena nobreza.

A arquitetura nos dá certa idéia de como era a vida nos castelos medievais. Sobre tudo nos mais numerosos: isto é, os mais pequenos povoados por uma nobreza ligada à terra. É uma nobreza que vive na familiaridade dos homens do trabalho manual e constitui o ponto de apoio da verdadeira aristocracia na massa da nação.

É essa nobreza que conseguiu em algumas regiões da França, levantar os camponeses contra a Revolução Francesa e produzir a Chouannerie. É este tipo de castelo, é este tipo de ambiente.

A vida que aqui se leva é de que gênero? Em geral as famílias típicas moradoras destes castelos eram numerosas. O filho mais velho ficava no castelo. E como o castelo era ao mesmo tempo a sede de uma pro-priedade rural grande, ele se dedicava à agricultura e à criação, e exercia alguns poderes governativos sobre seus súditos. Eram restos do feudalismo, que é o regime político, social e econômico no qual esse tipo de construção foi concebido.

Um nobre desse tipo, de vez em quando freqüentava a corte do rei, aonde ele tinha um lugar proto-colar, embora modesto, mas definido, em razão de sua categoria e de seu nascimento.

Mas, em geral, a sua vida era pacífica. Quando moço ele servia no exército, e quando ele se tornava um pouco mais maduro, ele se retirava para as suas terras.

E então entregar-se o resto da vida à agricultura, à criação, a esse pequeno governo local, à educação de seus filhos, ao convívio com sua esposa, e de vez em quando ele ia ver o rei em Paris. Era esta a vida calma e operosa de um castelão desse tipo.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra pronunciada em 4/9/1967. Sem revisão do autor).

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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

BURG ELTZ (II): harmonia entre o atarracado e o fantasioso, entre o militar e o aconchegado


No castelo há uma inegável harmonia que vem dos jogos dos torreões e da base, e muito do jogo de proporção entre a secção e a altura.

Nessa proporção o possante aparece delicado.

Depois de ter derrubado as árvores, deitado as garras no chão, e impedido a vegetação de crescer, o castelo ao longo dos séculos ficou ligeiramente sonolento e risonho na boa vizinhança das árvores que venceu.

E as árvores se colocam ao lado dele como junto a um protetor.

Há uma verdadeira coexistência entre o mato e o castelo, e pacífica, de uma coisa que não forma um unum, mas que tem uma junção muito agradável. Não há um choque, mas uma junção muito agradável.

O castelo é uma fortaleza bem dentro do espírito medieval verdadeiro, de quem prefere não combater; tendo de combater, combate com denodo, energia, eficácia, e até alegria.

Ele não é pontudo, ele tem pontinhas e é atarracadão como quem diz: eu aqui estou e daqui ninguém me tira, não venham porque vocês apanham.

O belo, o pulchrum do castelo, é assinalado pela proporção entre as várias janelas, poucas, andares altíssimos, mas muito bem colocadas.

E depois as torres que formam provavelmente um quadrilátero que e ordena a coisa.

Essas janelas são altas e mostram como é difícil entrar no castelo pelo muro. Então entra-se por baixo. É uma necessidade de defesa.

Dir-se-ia que o castelo se compraz em passear dentro do mato e ser pequeno em comparação com ele. O que indica ainda mais aquele misto de afabilidade, de espírito acolhedor, etc. É o lado de sua grandeza.

Esses castelos tinham habitualmente em conexão com eles uma vila, que às vezes era dentro, às vezes era fora.

Às vezes algumas vilas originavam também aldeias que se espalhavam como os colonos brasileiros nas fazendas. E essas aldeias todas vinham à missa ao domingo na capela do castelo.

Quando se casava o castelão eles vinham todos assistir e entravam com flores e cantando; nos dias de santo também tinham festas comuns.

Quer dizer, o castelo era a culminância, o lugar de encontro de todo mundo mais miúdo, mais baixo.

Bem entendido, do vigário, que quando não morava no castelo morava junto a uma igrejinha na paróquia, mas que era o hóspede de honra.

A população na Idade Média já era bem densa e o número dos castelos era grande. E os castelões tinham uns com os outros a mesma relação que tem, por exemplo, os fazendeiros uns com os outros.

De maneira que moram isolados porque suas casas são distantes.

Mas são muito relacionados com toda a redondeza.

Então, por exemplo, as moças da família do senhor feudal casavam nos feudos vizinhos.

A senhora feudal era ela mesma de outro feudo vizinho.

Era, portanto, um contínuo viajar, para aniversário, convidados, contato social muito elevado, que permitia contato dos populares também.

Cada castelão vinha com cinco ou seis, dez escoltas que também se hospedaram no castelo do outro e então conversavam.

E o regime de diz-que-diz, fala-fala era bastante intenso.



(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 5/7/1976. Texto sem revisão do autor.)

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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

BURG ELTZ (I): beleza sóbria, discreta e majestosa; encantador equilíbrio entre o espontâneo e o planejado


O castelo de Burg Eltz apresenta uma verdadeira charada.

A floresta dá a impressão de brotar num chão lindo, onde não tem poças de água, aranhas, bichos correndo, cobras, nem nada disso.

Mas um chão limpo, claro, onde só há a poesia de algumas coisas mortas ou abandonadas, pequenas trepadeirinhas com rosinhas, umas framboesas escondidas. E misteriosa.

A natureza toda é muito limpa, mas a floresta é misteriosa. Daria para aparecer ali um daqueles anõezinhos de conto de fada, mas também Santa Isabel de Hungria, Santa Cunegundes, Santo Henrique, etc., etc.

Nesta floresta há fontes que murmuram, rouxinóis que cantam, sombras que prometem coisas, dados incógnitos. Uma cúpula vegetal esconde uma "sub-vida" de delícias envoltas pelo verde.

A floresta forma um todo maciço. O castelo é também um todo compacto.

Forma um grande bloco sem desenho definido, que caminha de cá para lá e cujos contornos não são harmônicos.

Não se pode dizer que tenha um plano de conjunto bonito. É uma fortaleza que existe aonde pode.

Onde o terreno desliza há uma série de edifícios mais baixos que se inclinam junto com o terreno e que também não formam um plano definido.

A beleza do castelo não vem apenas do teto ornamentado, mas vem desse bloco que forma o corpo dele.

A beleza por vezes não resulta principalmente de um plano feito numa mesa de desenho. Mas resulta de um aproveitamento de circunstâncias concretas e práticas por um artista. É quase uma improvisação. É um castelo construído onde pode estar em pé, mas no total tem uma forma bonita.

Onde é que está a beleza da forma do castelo?

Cada parte foi construída segundo as necessidades do tempo. Isso levou a fazer um torreão aqui, uma parte maior do edifício lá, etc.

A preocupação estética está muito pouco presente. Entretanto tem uma verdadeira estética.

Qual é essa estética? Um fator dessa estética sem dúvida é esse mundo de torrezinhas, que contrastam com o atarracado da parte inferior.

Num castelo atarracado que floresce em mil pontas diversas, o atarracado realça a fantasia.

As torrezinhas estão numa ordem admirável, mas foram postas ao léu. Dir-se-ia que um aviador jogou torrinhas em cima e que elas torrinhas ficaram ali. Elas, entretanto, são encantadoras.

A beleza não está só nas torrinhas, mas na forma indefinida do corpo do edifício.

Então, no que é que esse corpo de edifício é atraente, uma vez que tudo levaria a achar que ele não o é atraente, pois não é planejado?

O espontâneo feito com bom espírito é uma síntese do planejado e do espontâneo desordenado. Nele, a liberdade e a direção se encontram num ponto de equilíbrio extraordinário.

Aliás, esse critério vale para o modo de governar uma organização, um país, mil coisas, inclusive para o indivíduo escolher o seu modo de ser.

O castelo tem um corpo que reflete um pensamento central. E os prédios nas encostas desse pensamento central vão tomando ar e jeito na medida das circunstâncias. Nos refolhos de um grande pensamento central cabem harmonicamente as mais variadas coisas.

Há aí um misto de direção e de espontâneo que é um encanto.

É uma realidade que quebra o queixo de socialistas e liberais. Porque os liberais dizem: nada deve ser dirigido porque a liberdade contém toda sabedoria; e os socialistas dizem: nada deve ser livre porque a direção técnica é a sabedoria.

E o castelinho de Burg Eltz responde com o equilíbrio certo entre esses dois exageros falsos.

A beleza sóbria, discreta, majestosa, firme está exatamente na proporção do castelo. Burg Eltz tem um atarracado possante que pouco liga para a floresta.

Como quem diz: "eu me meto aí no meio de você, essas árvores se afastem porque eu sou rei e sou dono, e aqui se leva uma vida civilizada, com móveis, com cortina, com tudo que não tem lá nas suas encantadoras selvajarias. Eu sou eu!"


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 5/7/1976. Texto sem revisão do autor.)

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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

O Monte Saint-Michel faz brilhar dentro de nós uma centelha do absoluto divino


No restauro da abadia do Mont Saint-Michel, o arquiteto Viollet-le-Duc deu o golpe de gênio da vida dele.

Ele encontrou, na agulha que ergueu no Monte Saint-Michel, a mais fina realização que coroa a beleza do monte-abadia.

E o mundo inteiro, quando vai lá, vai ver a agulha que Viollet-le-Duc pôs, não vai ver aquela montanha de pedras.

Ao se observar o Monte Saint-Michel, é impossível não sentir entusiasmo diante daquela flecha da Abadia.

O entusiasmo incide propriamente ali.

Sem a flecha, o conjunto perde muitíssimo.

O mesmo não ocorre com a catedral de Notre Dame, que é um escrínio, em que cada parte é bonita.

No Monte Saint-Michel, não: é bonito só porque Viollet-le-Duc — grande especialista em coisas da Idade Média — soube pôr aquela torre central, com aquela flecha, que da uma unidade maravilhosa à construção dispersa e faz com que aquilo seja o ponto de atração de turistas do mundo inteiro.

Há uma centelha do absoluto ali? Onde está?

O observador atento percebe que o edifício todo tende para uma unidade suprema ‒ um unum (fator de unidade), dir-se-ia filosoficamente ‒ e que o edifício é belo em razão daquele unum.

Aquela beleza suprema que define totalmente o Monte parece desprender-se da terra e subir para o céu.

Sobe, sobe... acaba numa flecha tão fininha que dá a impressão de que se dissolve no ar e chega até o seio de Deus.

É, portanto, algo tão bonito que, por ter certa analogia com as belezas de Deus.

Nele se vê a Deus.

E a visão de Deus nessa agulha nos dá a sensação do absoluto divino.

A agulha nos comunica uma centelha do absoluto de Deus.


Apud “A inocência primeva e a contemplação sacral do universo no pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira”, Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, São Paulo, 2008

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

O super-castelo: realidade sublimada onde vemos melhor os reflexos de Deus

Vitré
Olhando por exemplo para um castelo, as impressões nos encaminham para algo que é ainda mais do que o castelo que estamos vendo.

Subconscientemente pensamos em um super-castelo que não existe, mas que, em rigor, poderia existir. E então gostamos de pensar nesse super-castelo ideal.

Como ele seria?

Esse super-castelo, esse trans-castelo, só existe na nossa mente. Só na nossa mente? Não! Existe na mente de muitos outros, mas de um modo até muito diferente.

Então, esse trans-castelo tem uma certa existência. Ele existe numa esfera que não é a terrena. Poderíamos chamá-la de trans-esfera.

E essa trans-esfera pode ser objeto de uma análise do ponto de vista filosófico e teológico.

O que é esta trans-esfera dos castelos ideais que não existem materialmente? Não é uma esfera nova da realidade, mas algo que o espírito humano concebe como um produto do espírito. Ela existe na inteligência do homem.

Seria, segundo a terminologia da filosofia escolástica, um ens rationis, isto é, um ser ou ente que é concebível, porém não realizável fora do espírito (cfr. Regis Jolivet, Vocabulaire de la Philosophie, Emmanuel Vitte Éditeur, LyonParis, 1946, 2a ed., verbete être).

É uma imagem que o espírito humano cria para si, de uma ordem hipotética, não existente.

A partir de aspectos fugazes, de lampejos das coisas, nós construimos um modo habitual de ver todos os seres.

O homem sabe que essa trans-esfera, como ele a vê, de fato não existe.

Mas sabe que, quando os homens todos caminham muito rumo a Deus, todas as coisas da realidade são susceptíveis de serem sublimadas e constituírem uma visão transcendente. E assim formamos uma super-realidade, i. é, uma trans-esfera.

Neste sentido, a trans-esfera está composta de coisas possíveis existentes apenas na mente divina, que nos compete desenvolver e explicitar. Nos seres ideais dessa super-realidade nós vemos muito mais marcantemente os reflexos de Deus.

De maneira que a trans-esfera é um possível em Deus do qual nós temos certa noção a partir de seres criados ou de obras feitas pelos homens. Por exemplo, super-castelos que Deus poderia fazer e que nós imaginamos a partir dos castelos que já existem.

Desta maneira, de algum modo, esses castelos possíveis vivem em nós. E ele nos fornecem modelos ideais para o qual devemos tender e que inspiram os construtores de castelos materiais.

Quando esses possíveis reluzem em nós, nos dão a idéia do palácio interior que cada um deve construir dentro de si próprio.

A graça divina nos convida a realizar isso. Há algo da vida do próprio Deus, que é a graça que nos solicita a ver todas as coisas assim. A ver no castelo, para acima dele, o super-castelo.

Portanto, a trans-esfera onde existem esses trans-castelos irreais nos projeta na ordem sobrenatural. E ali nos nós tornamos de algum modo cidadãos do palácio ou da cidade que ainda não construímos.

Essa cidade ideal que ainda não construímos, de algum modo já vive e existe em nós.

Fonte: “A inocência primeva e a contemplação sacral do universo no pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira”, Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, São Paulo, 2008.

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Domingo, 21 de Dezembro de 2008

Santo Natal e Feliz Ano Novo!


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