quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O risco na vida dos homens dos castelos


O jovem pajem que ia ser senhor feudal quando seu pai morrer, era esbelto, magro, fino, com o corpo ereto, com a fisionomia pronta para a aventura, de espada à cinta, pronto a montar um corcel e a correr para fazer uma viagem de um mês, no meio de todas as aventuras, e voltar carregado de glórias ou de ferimentos

O homem da plebe não tinha obrigação de combater, não tinha vocação de herói. Eles apenas tinham que ser produtivos. Nas iluminuras e vitrais medievais aparecem tranqüilos, gordões e pacíficos.

O fidalgo não. Ele era feito para todos os brilhos, glórias, riscos, e para a qualquer momento, despencar em qualquer precipício!

Riscos da vida de um fidalgo? Mas todos! Todos!

Inclusive de um inimigo, que ele podia encontrar na esquina daquelas ruas tão sinuosas das cidades da Idade Média, com quem ele trava desde logo um duelo de morte, que seria o quinto do dia...

Depois ele vai repousar em sua cama, se não vai já de uma vez no caixão funerário...

De manhã, ele nunca sabe onde vai repousar à noite. A menor preocupação é o repouso. Ele não quer saber se ele descansará, ele quer saber se ele vencerá!

Um homem construído com essa tempera, podia facilmente ser o objeto da admiração e o modelo daqueles sobre os quais exercia a autoridade.

Mas ele podia também ser, facilmente, o terror daqueles em quem mandava

Por que terror? Porque não era raro eles construírem castelos em montanhas, dominando a passagem de rios ou estradas.


E quando eles percebiam de longe que vinham comboios de barcos de comerciantes, eles desciam depressa, abordavam os barcos, levavam os comerciantes para a cadeia e ficavam com tudo quanto eles traziam. Era o terror do comércio, mas enchia a despensa do senhor feudal.

Depois, o próprio senhor feudal vendia aquilo que tinha tomado demais. E com o dinheiro mandava comprar armas, reconstruir muralhas, entreter o castelo. Assim ia a vida...

Eram os senhores feudais, muitas vezes, bandidos.

E nada desdoura mais a condição de senhor do que ser bandido. Nada é mais aviltante do que ser bandido, do que roubar de um pobre homem desarmado o produto de seu trabalho.

Mais sobre castelos de bandidos.

Cadeia! Senhores feudais desse jaez deveriam ir para a cadeia

A Igreja apostrofou tremendamente esses maus senhores.

Mas, ao mesmo tempo, foi dando jeitos neles.


Um desses jeitos consistiu em enviá-los para as cruzadas.

Por isso nós vemos nos famosos sermões do Beato Papa Urbano II e de São Bernardo, alusões aos terríveis crimes que precisam ser expiados.

E a expiação consistia em ir a Terra Santa e descarregar sua força no ímpio pagão invasor.

E assim muitos foram tocados pela graça, deram suas vidas, repararam seus pecados e ganharam a vida eterna!

Com os séculos, até esses senhores díscolos foram sendo amansados e se integraram por casamentos e alianças na nobreza regrada e que sintonizava com a moral do Evangelho.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 2/6/84. Sem revisão do autor)

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O morador do castelo: forte, herói, dando a vida pelos súbditos


O senhor feudal era homem forte, vigoroso, destro nas artes da guerra.

Desde muito jovem, com doze, treze anos, já era mandado por seus pais para servir de pajem na corte de outro senhor feudal.

Talvez por reputarem que, sob a férula de um outro senhor, mais elevado, ele seria educado de um modo mais varonil, do que com os carinhos do pai ou da mãe.

Então, ele era mandado cedinho para o castelo de um senhor feudal mais alto, para ali começar a se adestrar na guerra, carregando a espada do senhor, limpando-a, calçando as esporas, limpando a armadura, capacete ou elmo; recebendo pitos e castigos! E pito e castigo, na Idade Média, era pito e castigo truculento!

Aprendia também a acompanhar o senhor feudal na operação militar, não podendo combater às vezes, mas passando para o senhor mais uma flecha para ele disparar, uma segunda espada, quando a primeira quebrava-se, etc.

Esses senhores feudais quando chegavam digamos 25 anos, por exemplo, já eram homens truculentos e fortes, como carvalhos na floresta.

Eram admirados por todos porque a coragem é uma qualidade que inspira respeito.

Admirados por todos porque a autoridade de que eles estavam revestidos ‒ eles eram governadores das propriedades rurais das quais eram donos ‒ porque a autoridade é também inspiradora de respeito.


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 2/6/84. Sem revisão do autor)

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Langeais: perguntas que nos faz um castelo de conto de fadas

O castelo de Langeais foi reconstruído a partir de 1886 por um magnata francês de nome Jacques Sigfried, estudioso dos costumes da época medieval. O prédio estava todo escangalhado.

A seu lado existem as ruínas da mais antiga torre feudal da França, do século X.

Sigfried determinou no seu testamento que ele e sua mulher fossem enterrados lá. É uma bonita idéia. A não ser enterrado numa igreja, aos pés de um altar, a coisa mais bonita é ser enterrado aos pés de um edifício histórico desse alcance.

Langeais, casamento de Carlos VIII com Ana de Bretanha, castelos medievaisO castelo é puro conto de fadas. Ele foi completamente remobiliado e redecorado com grande rigor histórico. Possui peças muito bonitas. O interior de Langeais alarga o espírito ver.

Numa sala, bonecos de cera feitos pelo Grevin, representam o casamento do Carlos VIII com Ana da Bretanha. Os bonecos levam trajes de época.

Há presente um bispo oficiante e um outro assistindo. Também figura a Ana de Beaujeu, irmã do Rei casada com o Príncipe de Bourbon.

O grupo está muito bem apresentado, muito interessante e dá muita vida à sala.

A chaminés são bonitas.

O banco que não tem dorso, numa sala de espera fica muito bonito.

A muito boa boiserie das paredes está marcada pela venerabilidade da madeira velha.

A decoração primeva desses salões comportava no chão peles de animais que quebravam a monotonia.

Nos cantos havia grandes suportes de metal no alto do qual colocavam velas, ou matérias odoríferas, que ambientavam mais.

Os grandes castelos de épocas posteriores, como Versailles ou Meaux, não se baseiam nesse princípio de beleza. São outros princípios de beleza inferiores.

A fachada do castelo dá a impressão de uma coisa viva.

Mas no pátio percebe-se um pouco de melancolia e tristeza que vêm da época do romantismo em que o castelo foi refeito.

Langeais, Ana de Bretanha e damas de companhia, castelos medievaisNo jardim tem-se impressão de notar ainda as pessoas com os trajes daqueles bonecos andando lá e dando risada, conversando, jogando de bola com alguma raquete, bebendo alguma bebida.

Mas, de repente tudo aquilo desapareceu e a própria Idade Média se esvaiu deixando lugar para o vazio moderno.

Quais foram os últimos habitantes medievais de Langeais? Houve alguém que fosse tocar alaúde sozinho em Langeais, quando o castelo estava vazio? Não sabemos.

Se a Idade Média tivesse continuado, quais novos estilos teriam aparecido? De que maravilhas o mundo teria se enchido? Como seriam as pessoas que a gente encontraria pela rua? Como seria um casamento? Uma festa? Um bispo?

São coisas nas quais Langeais nos convida a pensar.

Langeais, fachada, castelos medievais

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Sem revisão do autor.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Castelos de Neuschwanstein e Hohenschangau na Baviera


O castelo espelha um aspecto altamente hierárquico da grandeza, que tem graus e que neles se desdobra, até tocar os homens menores.

Oferece como que um afago a quem nele quer entrar com boa intenção, e exprime uma ameaça para a pessoa que deseja entrar com má intenção.

Porque este castelo revela algo de fortaleza, e esta exprime algo de prisão.

Neuschwanstein é um castelo altamente simbólico.



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domingo, 3 de janeiro de 2010

Neuschwanstein na Baviera e a Conciergerie em Paris




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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Flanação de Natal por castelos medievais da Alemanha



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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Santo Natal e Feliz Ano Novo 2010 !


Se seu email não reproduz as músicas embaixo CLIQUE AQUI

Clique aqui para ouvir o canto de natal francês “Marcha dos Reis Magos”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal alemão “O du fröliche, o du seliche”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal italiano “Quando nascette Ninno”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal francês “Os anjos em nossos campos”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal alemão “Stille nacht”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal alemão “Es ist ein Rosentsprungen”:


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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Palácio da Senhoria de Florença: seriedade e altivez


Durante muito tempo o Palácio senhorial de Florença foi a sede de governo de um pequeno Estado – o Grão-Ducado de Toscana, na Itália -- que ocupou na cultura e no pensamento humano um lugar proeminente. Foi uma grande potência do pensamento.

O palácio é típico do estilo florentino. Sua cor é bonita, o amarelado da pedra utilizada na construção apresenta aspecto agradável, nada mais do que isso.

Uma torre quadrada com relógio, janelas, algumas em forma ogival, outras puras perfurações na parede, destituídas de beleza especial.

Estamos habituados, na ótica moderna, à idéia de que a torre deve estar bem no meio do edifício. Ali não. A torre fica um pouco mais para o lado direito da fachada.

E o relógio está colocado na base da torre, quando normalmente localizar-se-ia em sua parte superior das ameias, para ser visto pelo maior número de pessoas.

Constata-se a simplicidade do estilo do edifício, procurando-se nele uma porta de entrada monumental, que deveria ser proporcional à fachada principal. Ela não existe.


À frente de uma das janelas há um balcão. Dir-se-ia que um palácio tão grandioso comportaria um balcão mais bonito, mais elegante. Igualmente este não se encontra no Edifício. O estilo florentino é seco, quase lambido. Reflete a psicologia dos habitantes da cidade.

Esse edifício é belo? É lindo! Para meu gosto pessoal é extraordinário! Sério e altivo. O modo pelo qual a torre ergue-se altaneira no corpo do palácio é extraordinário.

Uma palavra convém dizer sobre a fileira de arco que circundam a parte superior de todo o edifício, cobertos por um teto, com uma nota de suavidade, quase se diria doçura séria, hierática e agradável, que completa um pouco o que o palácio tem de seco.

Na realidade, tais arcos são grandes machicoulis* ornamentais, utilizados como elementos de adorno na arquitetura da época.

E merece ser ressaltado o bom gosto em colocar no interior de cada um dos arcos – formado pela conjugação de dois machicoulis ­­-- um vistoso brasão. Tais ornamentos constituem um fator de decoro da Praça do Palácio da Senhoria.

* * *

Imaginemos uma pessoa que sai de seu escritório à noite. Ela deixou um pequeno carro qualquer estacionado junto ao Palácio.

Chove, ela sai com uma capa de chuva, fumando um cigarrinho ‒ ele já fumou 20 durante o dia ‒, cansada. Chega junto ao carro. Ela vê diariamente aqueles machicoulis.

Tal pessoa terá altura de alma para reter o passo e entreter-se na consideração do palácio? Podemos imaginar dois modos de ser distintos.

Um é o do homem que está atolado no mundo moderno, gosta deste mundo e passa perto do palácio considerando-o uma coisa inoportuna.

Se ele olhar para o edifício, transferirá seu espírito das considerações sobre o seu ganha-pão, para considerações com as quais ele nada tem o que fazer.

O palácio ‒ para usar uma expressão italiana que freqüentemente me tem vindo ao ouvido ‒ é uma coisa “con la quale o senza la quale, il mondo va tale quale” (com a qual, ou sem a qual, o mundo segue tal e qual). E esse homem, assim, torna-se ainda mais insensível ao palácio.


Se ele, pelo contrário, é dotado de mentalidade superior, distancia-se um pouco, apesar da chuva, e diz: “Vou descansar, olhando para esta beleza. Vou tomar um banho de espírito pensando nela, contemplando-a alguns instantes ...”

Entra no automovelzinho, dá um giro, recua um pouco e, enquanto acaba de fumar o seu cigarro, fica observando pela enésima vez em sua vida o Palácio da Senhoria. E admira, por exemplo, as duas séries de pequenos machicoulis e de ameias existentes na parte superior da torre...

Aquilo entranha-se na alma dele. Seu espírito torna-se mais rico, como um depósito de arte de algum modo insondável.

Os homens desse último gênero são incomparavelmente mais raros do que os do primeiro. Eis aí uma explicação viva da insensibilidade, que é uma das tentações do homem moderno...

*Machicoulis: balcão de pedra construído no cimo das muralhas e das torres, na Idade Média, cujo fundo apresentava aberturas pelas quais o defensor lançava sobre o atacante toda a sorte de projéteis.


(Fonte: Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, 23-11-1988. Sem revisão do autor. Catolicismo, dezembro 1998).

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Em Combourg, um exemplo da austeridade da vida dos nobres nos castelos

Chateaubriand, grande romancista do século passado, era filho do Visconde de Chateaubriand. A família possuía um castelo da Bretanha perto do mar: Combourg.

É um castelo enorme e a família era pequena, de maneira que não dava para encher todas as alas do castelo. Então o pai, para fazer o castelo habitado em todas as suas partes distribuía a família pelas várias partes do castelo.

E Chateaubriand –menininho de 9, 10 anos, mas já chamado nessa idade Monsieur le Chevalier –, quando chegava 21:00 horas em que o serão familiar se interrompia, recebia um castiçal com uma vela na mão e ia para uma torre perto do mar, onde uivavam todos os ventos.

Combourg fica perto da Mancha cujos ventos são famosos. É um dos trechos do mar mais agitado que há no mundo.


Os ventos todos sopravam por aquela torre, e Monsieur le Chevalier, por mais “Chevalier” que fosse tinha as reações de um menino diante do vento.

Tanto mais que em Combourg havia histórias de fantasmas, aliás de todo castelo se diz que tem fantasmas.

Quando chegava a noite no inverno, ele fechava a cortina em torno da cama. Esse cortinado formava uma verdadeira tendazinha em torno da cama, para que o calor das cobertas e do corpo fique conservado.

Então Monsieur le Chevalier subia alguns degraus para se encarapitar numa cama muito alta e muito grande onde Le Chevalier nadava.

Na torre os ventos uivando, uivando, uivando... E ele naquele cortinado, com pavor que, de repente, um fantasma pálido como a lua abrisse a cortina e olhasse para Monsieur le Chevalier.

Os nobres que eram educados assim, depois quando adultos faziam de tudo, como Chateaubriand. Todos eles eram aventureiros, porque ficaram habituados à aventura desde meninos.


Um velho ditado diz que em menino se torce o pepino. E é o hominho que vai fazer grande o homem.

Quem quiser ter grandes homens tenha grandes hominhos. Nada de educação tola para crianças, com bola boba para criança boba, nada disso.

“Relegado ao lugar inabitado junto à entrada das galerias subterrâneas, não me passava despercebido um só dos murmúrios das trevas. Por vezes o vento parecia correr com passos ligeiros; por vezes exalava gemidos; bruscamente minha porta era sacudida com violência, os subterrâneos rugiam, e depois cessavam para recomeçar mais tarde. Às quatro horas da manhã, a voz do castelão (que era o pai dele) se fazia ouvir chamando o camareiro, sob as abóbadas seculares, ressoando como a voz do último fantasma noturno”.


Então, o último fantasma da noite diante do dia que nascia era o velho Chateaubriand, esquelético, alto, com um olhar que batia como uma pedra e que chamava.

Monsieur le Chevalier entendia que chegou a hora de escapar de lá e de voltar para o convívio dos vivos. Ele tinha passado uma noite inteira com os fantasmas.

A vida dos nobres medievais ‒ Chateaubriand não é da Idade Média, mas há muitas analogias ‒ era muito dura. Por isso, a maioria da população gostava ficar no aconchego das classes populares, gordas, bem alimentadas, bem aquecidas, preocupadas apenas com o trabalho, a produção, o comércio, a família e a festa.

O nobre era o protetor e o garante da felicidade geral. Mas, ele próprio no seu castelo, vivia uma vida austera que formava heróis para o dia em que o perigo se abatia sobre a região toda e ele tinha que sair o primeiro a expor a vida para salvar a todos.


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 16.2.73. Sem revisão do autor)

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Palácio dos Doges de VENEZA: maravilha da Civilização Cristã


Observamos o célebre Palácio dos Doges de Veneza que, pelo fato de estar a dois passos do mar, tem um especial encanto.

A cor do palácio é de difícil definição. A meu ver, ela varia um pouco de acordo com a luz do dia, por vezes parecendo de um róseo muito delicado, mas não homogêneo.

Nas ogivas góticas percebe-se a cor rósea e branca.

De acordo com a lei da gravidade, o mais pesado deve carregar o que é mais leve.

Nesse sentido, seria explicável que tal edifício fosse construído de tal maneira que essa espécie de “caixotão” róseo — é quase um ultraje chamá-lo assim, mas enfim, permitam-me a liberdade de expressão — ornado por ogivas fosse edificado diretamente sobre o solo.

Também que as colunas do andar inferior, juntamente com a colunata que toca o solo, fossem colocadas em cima do “caixotão” róseo que, entretanto, repousa sobre elas.

As ogijvas estão dispostas deliciosamente simétricas, pensativas, calmas, tranqüilas e nobres, parecendo estar elas mesmas contemplando o mar.

Desta maneira, por um contraste interessante, tem-se a impressão de que, construído como foi, o palácio causaria uma sensação de peso medonho, e que a qualquer momento o “caixotão” iria esmagar a colunata.

Entretanto, está calculada com tanta inteligência a distribuição dos corpos e dos volumes do edifício, que ele não causa essa impressão.

Pelo contrário, a colunata carrega sem esforço o grande “caixote”. E ele, recusando-se a pousar na terra, é suportado por colunas magníficas, de maneira que por debaixo dele circula o ar.

A arte consiste em apresentar uma primeira série de ogivas muito bonitas; e depois, embaixo, outra linha de arcos.

Assim, o palácio parece estar suspenso no ar.

Chamo a atenção para o que há de bem pensado em cada detalhe da fachada.

Por exemplo, como ela ficaria monótona se, bem no meio, não houvesse uma porta dando acesso ao terraço; se figurasse ali mais uma ogiva, o palácio tornar-se-ia insuportável; e aquele terraço tem exatamente o tamanho adequado para a porta.

Eis aí alguns elementos para se analisar e contemplar bem, e de modo um tanto leve, uma das maravilhas do Universo: o Palácio dos Doges de Veneza.




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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Tomar: reduto dos templários em desgraça (II)

Quando a injustiça se abateu sobre os templários, eles estavam também em Portugal desde os tempos de D. Afonso Henriques, e ali nenhuma suspeita pôde ser contra eles levantada.

Nem por isso estavam isentos de sofrer a mesma punição que tinha caído sobre eles na Europa.

Foi hábil a decisão do Rei D. Dinis de Portugal, de executar a ordem pontifícia de fechar a Ordem, mas não para apossar-se de seu patrimônio, e sim para doá-lo à Ordem Militar da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou simplesmente Ordem de Cristo, que criou em 1318.

O Papa João XXII nomeou D. Gil Martins seu primeiro grão-mestre, que antes o fora dos cavaleiros de Aviz.

Quis El-Rei que a nova Ordem tivesse seu quartel-general em Castro Marim, para defender o Algarve das incursões dos mouros dos reinos do Marrocos e de Granada.

Em 1356, transferiu-se para Tomar, no Ribatejo. Ali existiam, desde 1160, o castelo e o convento dos templários, doados à Ordem de Cristo.

* * *

Sete mestres cavaleiros teve a Ordem de Cristo até ser nomeado seu Regedor o Infante D. Henrique, Conde de Viseu, chamado o Navegador (1394-1460). Daí em diante ficou ela vinculada à Casa Real.

Herdou esse governo D. Manuel, o Venturoso, conservando-o durante todo o seu reinado.

Dispondo a Ordem de grandes recursos, empregou-os D. Henrique em seus projetos de navegação, com vistas à expansão da fé cristã e à conversão dos povos pagãos.

Foi assim que as naus comandadas por Pedro Álvares Cabral vieram ter ao Brasil, tendo estampadas em suas velas a Cruz de Cristo, símbolo da Ordem que patrocinava as navegações, e à qual o descobridor da Terra de Santa Cruz também pertencia como cavaleiro.

As ordens de cavalaria representaram uma das mais altas expressões do espírito cristão, que é o espírito de luta.

A vida do católico neste mundo é um combate, pois ele pertence à Igreja Militante. O Lutador por excelência foi Nosso Senhor Jesus Cristo, que levou o seu combate até à agonia e morte na Cruz. Agonia, em grego, quer dizer precisamente luta.

Nessa perspectiva, o convento-fortaleza de Tomar pode ser considerado um dos lugares mais sagrados de Portugal.


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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Tomar: reduto dos templários em desgraça (I)


A Cavalaria, que um autor francês chamou de “a mais bela aventura da História”, é fruto do amor de Deus numa época em que sociedades inteiras moviam-se em conformidade com os 10 Mandamentos e as leis da Igreja.

São Miguel Arcanjo, príncipe da milícia celeste, é o patrono da Cavalaria.

Enquanto instituição, ela nasceu das relações feudais, pelas quais os homens se apoiavam mutuamente para defender-se ante as freqüentes invasões bárbaras.

Essa confiança mútua baseava-se na noção de honra lastrada na caridade cristã.

Dentre as mais célebres ordens de cavalaria destaca-se a dos Templários, criada em 1119 na Cidade Santa por cavaleiros francos. Seu nome liga-se ao Templo de Salomão.

Sua divisa era: “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam” (Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso Nome dai glória).

Faziam o voto de não recuar nas batalhas. Por isso eram terríveis e temíveis, impondo profundo respeito aos inimigos.

* * *

Com exceção das duas primeiras cruzadas, as sucessivas foram muitas vezes marcadas por desastres, devido às misérias humanas: cobiça, intriga, vanglória, etc.

Com o fim do Reino franco de Jerusalém, as ordens de cavalaria refluíram para a Europa. A dos Templários foi das mais prósperas, chegando a possuir, só na França, cerca de 9.000 commanderies (espécies de fazendas fortificadas).

Seu patrimônio, adquirido mediante doações, era imenso. Mas seu ideal infelizmente já entrara em decadência.

No começo do século XIV, era rei de França Filipe IV, o Belo — homem de espírito revolucionário, oposto ao de seu avô São Luís IX.

Em disputa com o Papa Bonifácio VIII, mandou esbofeteá-lo em Anagni, o que provocou a morte do Pontífice por desgosto, pouco depois, em 1303.

Em 1305, subia ao trono de São Pedro o francês Bertrand de Got, com o nome de Clemente V.

Sensível às instâncias do rei francês, o novo Papa mandou fechar, em 1312, a Ordem do Templo, baseado em acusações graves e obscuras, que até hoje a História não desvendou cabalmente. E a coroa francesa apossou-se dos bens da Ordem.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Torre de Belém: monumento de um guerreiro em prece — sério, forte e impassível


Ela é uma torre?

Sim, mas é quase um palácio em forma de torre cercada de um grande patamar, onde se notam guaritas nos ângulos para os vigias, que disparam armas de fogo contra inimigos que se aproximem.

A idéia de guerra está altamente presente nela.

Essa torre que se ergue assim sozinha no estuário do rio Tejo, tendo sobre si a abóbada celeste e mais nada, dá a impressão de considerar com uma superioridade natural tudo quanto está a seus pés.

Propriamente, ela é um reflexo simbólico da missão de Portugal do tempo em que foi construída.*

***


Portugal, o que era naquele tempo?

Uma pequena nação, é verdade, mas não diminuta em relação à Península Ibérica da época.

Durante toda a Idade Média, Portugal pesou como potência dentro do panorama ibérico.

Assim, essa torre simbolizava uma nação destinada a descobrir, conquistar, povoar, assimilar a seu espírito e à sua civilização povos de uma vastidão imensamente maior do que a sua.

Basta pensar no Brasil, em Angola, em Moçambique, para se compreender o que tudo isso representou enquanto territórios trazidos para a Cristandade. Mais ainda do que os países atraídos para a Cristandade, constitui-se o Brasil como numa página quase em branco, onde Nossa Senhora ainda venha escrever mais maravilhas no século XXI.

Um misterioso vento histórico pousou sobre a Torre de Belém, do alto da qual os reis e os grandes homens de Estado iam ver partir as esquadras lusas.

Ela simboliza um desígnio de Deus, simboliza uma missão. Ao pé dela poder-se-ia escrever: estátua de um guerreiro em prece — sério, forte e impassível.

Comparemo-la com um arranha-céu moderno. Suponhamos que alguém dissesse: "A torre aqui está ocupando inutilmente espaço. Podemos derrubá-la e jogar toda essa pedraria velha no fundo do Tejo e construir ali um prédio, o maior do mundo, com 200 andares!"

Eu nunca mais desejaria ver esse lugar, caso isso ocorresse.

Entretanto, se alguém mergulhasse até o fundo do estuário do rio e trouxesse uma das pedras dessa torre que fora derrubada, eu diria: "Dá-me uma lasquinha da pedra, para guardá-la e levá-la comigo para minha sepultura".

"Estátua de um guerreiro em prece — sério, forte e impassível"

* A Torre de Belém foi edificada no estuário do rio Tejo, em Lisboa, entre 1515 e 1520, no reinado de D. Manoel I. Ela impressiona pelo seu estilo gótico luso, cognominado manuelino.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 22/02/1986. Sem revisão do autor).

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Fontainebleau: triunfo da harmonia e da medida francesa

Fontainebleau foi construído por reis da Casa de Valois e foi habitado pelos Bourbons. Depois foi conspurcado pelos Bonapartes.

A fachada lateral de Fontainebleau dá uma certa idéia do castelo. Ela é luminosa.

O teto não é inteiramente horizontal, mas de vez em quando é interrompido por altos corpos de edifícios.

A fachada tem uma sucessão de janelas, e há uns painéis que interrompem a sucessão.

Na fachada principal de Fontainebleau vê-se o gosto pela harmonia e pela medida francês.

Há uma harmonia extraordinária entre o primeiro e o segundo andar.

As mansardas do segundo andar fazem arco para o andar térreo. O inefável, a proporção está em tudo.

Há uma variedade que ainda lembra o variado gótico: os senhores têm os vários pavilhões.

O fer-à-cheval é a escadaria mais famosa do mundo. Ela é chamada de ferradura, porque a parte central corresponde vagamente ao esquema de uma ferradura.

Há um movimento extraordinário da escadaria. Ela se desenvolve, fecha-se, abre-se numa reta, volta atrás um pouco, abre-se mais de novo, e depois repentinamente muda de direção.

Enquanto isso, o corrimão de um lado faz movimentos que não são análogos, mas que são de uma agradável proporção com o movimento do outro lado.

Há uma elegância de vai-e-vem. Uma pessoa muito elegante que se movesse descendo a escada faria vagamente esses movimentos.

Isso tem qualquer coisa de humano, nobre, que é inexprimível.

Embaixo há uma porta de entrada que não é a porta nobre. O andar térreo não era nunca o andar nobre. O andar nobre era sempre o primeiro. Ali está a porta nobre e o busto de um personagem que se quis glorificar.


O princípio monárquico e o aristocrático estão fortemente representados com a maior distinção.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 15/2/1972. Sem revisão do autor)

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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cheverny: castelo da harmonia, da simetria e da proporção


Cheverny é o castelo de um nobre e, portanto, é incomparavelmente menor que um castelo real.

Ele tem os mesmos elementos ornamentais, embora mais modestamente.

O castelo se divide em uma parte central, que representa o princípio monárquico e, depois, duas partes colaterais compostas elas mesmas de duas partes.

Ele tem harmonias misteriosas. Se o teto de cada parte fosse igual ao das outras partes do castelo estava liquidado.

Ele tem uma série de rampas. Por que essas rampas? Que razão têm?

Com esse equilíbrio do arredondado com o fortemente anguloso dos dois lados, estabelece-se uma simetria. Duas partes bem fortes e bojudas tendo ao centro uma parte muito delicada. Esta termina com uma ponta esguia acentuada por duas chaminés ainda, que está em contraste com as partes fortes.

Está tudo tão bem pensado que não parece pensado. O sumo bom gosto da arte francesa é de fazer coisas super-pensadas com a naturalidade de um sujeito inteligentíssimo.

Ninguém perdeu a cabeça para fazer isso. É um homem de alto gosto, que passeando por debaixo dessas árvores que são verdadeiras epopéias vegetais, passeando vestido de damascos e de rendas, de sapato de verniz com salto vermelho e brincando com a mão na copa da espada, imaginando coisas agradáveis e se lembrando de uma melodia qualquer tocada ao cravo, desenhou com a ponta da espada, sobre um canteiro, um projeto de castelo. E depois mandou executar.

É o trasbordamento de uma harmonia que havia dentro dele. Não é o raciocínio apertado de uma École Politechnique: é uma coisa leve.

Não houve erudição, mas uma coisa muito melhor: talento. Melhor ainda: tem nobreza. Melhor ainda do que nobreza, tradição católica.

O elemento monárquico se afirma de um modo paradoxal, não na parte mais forte, mas na mais débil. O mais delicado do castelo está na parte central.

Sem ser mais alta, ela é mais esguia e dá a ilusão de mais alta. Ela é mais delicada, lembrando que muitas vezes a majestade não se afirma na força, mas no requinte. Daí uma outra forma de apresentar o princípio monárquico: é no quintessenciado, no delicado.

Os canteiros do jardim são muito lisos, mas um liso que não tem nada de indecente ou desagradável.

É um liso que talvez descanse do que esse teto tem de muito movimento. Depois começa a floresta magnífica.

O gramado dá a impressão de uma coisa clara, tranqüila. A relva se prolonga para dentro do arvoredo, até encontrar uma floresta próxima, que a gente mais adivinha do que vê.

Se não houvesse esses dois poteaux fariam falta. São dois pingos, duas gotas que dizem: “pare e veja”.

O castelo ficaria desamparado diante da vegetação se não tivesse esses pontos. É o senso da medida do francês.

Se se pusesse duas colunas grandes escangalhava-se tudo.

Cada um dos elementos tem a altura e a largura necessária para ficar perfeito.

É notável a beleza da proporção entre a alameda e o castelo. Ela tão larga, que com um pouquinho mais ela ficaria mal.

Eis o Castelo de Cheverny: aristocrático, distinto, senhorial, modelo não para um rei, mas para um senhor, acolhedor para o povo, oposto firmemente a qualquer forma de vulgaridade.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 15/2/1972. Sem revisão do autor)

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Maintenon: castelo de requinte e sonho


Há perfumes tirados por sucessivas destilações, preparações e acréscimos a partir de uma substância quintessenciada, tão agradável, fina, e extraordinária, que quase não tem mais nada de comum com a flor.

As vezes dizem “perfume de tal flor”. Mas, a flor foi desintegrada e deu uma coisa muito melhor. Trata-se de perfumes tão finos, raffinées e excelentes, que perdem contato com a realidade.

Mais parecem com um sonho de coisas que não existem do que com a quintessência viva da realidade.

Um país que quintessenciou tanto, tanto, tanto, que palácios, castelos, modas, músicas, tecidos, maneiras, tipo humano parecem sonhados: é a França de antes da Revolução Francesa.

Aquilo tudo é um sonho. Quando os homens resolveram sonhar, a França surgiu com sua fisionomia.

Um dos muitos exemplos disso é o castelo de Maintenon. Já o nome é de castelo de um outro mundo.

Esse sonho satisfaz de tal maneira um desejo da alma humana, que os turistas vivem abarrotando a França, vindos do mundo inteiro.

Maintenon pertenceu à esposa segunda, legítima mas morganática, de Luís XIV, que era Madame de Maintenon. Ele deu para ela esse castelo.

É um castelo em estilo medieval construído numa ilha. Em volta onde havia canais e lagoas foram escavados fossos segundo a arte de guerra medieval.

É uma beleza de castelo e muito bom para a família feudal passarem a noite, porque recolhiam tudo dentro da ilha. Se fossem atacar a ilha, os canais ajudavam.

Em Maintenon se deu um fato histórico. O rei legítimo Carlos X fora destronado em 1848 por uma revolução meio republicana e teve que fugir da França. No caminho parou em Maintenon.

Carlos X passou uma noite tranquilíssima no castelo, e no dia seguinte partiu até o porto, para pegar um navio que o levaria para Inglaterra.

Na hora da despedida, o rei em desgraça a tropazinha de fiéis formar em estilo militar, para um último adeus. No fundo era um adeus à legitimidade, foi uma coisa tremenda.

Carlos X foi passando montado a cavalo para receber a continência da tropa. Então, um soldado saiu das fileiras, pôs-se diante dele e olhou para ele.

Então o rei disse em tom de reprimenda militar:

‒ O que é que você faz aí?

‒ “Eu quero vos admirar por uma última vez, majestade!”

Carlos X não disse nada.

Aquele homem admirou o rei o quanto quis e daí a um instantinho as vias das vidas dos dois se separaram. O soldado voltou para casa, para a vidinha dele, e Carlos X foi para as amarguras do exílio.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, datas diversas. Sem revisão do autor.)

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O castelo de La Mota: contraste harmônico entre a altaneria e a estabilidade


No castelo de La Mota (Valladolid, Espanha) destacam-se as muralhas e os torreões. A torre principal é a nota dominante das muralhas.

Estas são altas, trabalhadas, belas, dignas, altivas. Mas as muralhas sozinhas não têm nada de extra-ordinário..

É uma muralha plácida, tranqüila que se estende como um retângulo, sem maiores movimentos. As torres estão intercaladas simetricamente, sem maior fantasia, obedecendo a uma necessidade militar, sem nenhuma preocupação estética particular.

Realçando as muralhas, vem a torre alta, imponente, desafiante. A diferença de altura e de poesia, de fantasia, de imaginação que vai da torre para os muros é enorme. A muralha fica como um véu, ou manto, que pende da coroa da rainha que é a torre.

Ao mesmo tempo ela é atarracada, forte, firme como quem diz: “eu olho de cima, eu desafio, mas eu resisto. Eu não tenho medo de nada. Minha proa corta os vagalhões dos adversários como a proa de um navio corta os mares. Para mim nada oferece dúvida. Eu estou disposta a resistir de todo jeito, a todo transe. A mim ninguém me derruba. Nem depois de abandonada, isolada, ou retirada de qualquer uso militar, eu deixo de ser uma proclamação viva dos ideais os quais eu servi.”

Essa torre por cima dos séculos espera novos adversários para prestar novos serviços aos mesmos ideais. Ela está intacta.

Para ela, o abandono dos homens, a mudança das circunstâncias não quis dizer nada. Ela é, ela está. E ela espera tranqüila o fim do mundo e não teme o juízo de Deus.

É uma afirmação da consciência tranqüila de quem caminha para a morte e para a eternidade sem se preocupar.

O castelo dá a impressão de um esqueleto calcinado pelo sol.

A vida de todos os dias não se desenrola mais nele. Por dentro está pouco mais ou menos abando-nado. Mas, por causa disso, tem-se a sensação de um imenso naufrágio, cuja tristeza e cujo abandono é acen-tuado pelo esplendor do sol.

A luz bate, a natureza toda se alegra, indiferente à tristeza do castelo. O castelo é ufano, mas triste. Há nele qualquer coisa que anuncia a ruína de uma ordem de coisas que dentro dele houve.

De outro lado, há uma alegria que o sol e a luz comunicam ao castelo. E traz uma esperança de reviver. Há uma melancolia e uma promessa de retorno no castelo que produzem uma impressão simultânea de vitória e de tragédia.

A árvore comunica um pouco de vida à paisagem. Um pouco de seiva, de sorriso de vida concreta, se recosta junto ao velho castelo e dá um pouco de animação àquilo que é tão hirto e retorquido pelo sol.

A torre olha muito de cima a todos os adversários. Ela está agarrada ao chão, e diz: “esse chão é meu, e daqui ninguém me tira. Eu fico.” Ou seja, determinação altaneira, sobranceira e firme.

Esta altaneria e estabilidade é de quem toca no Céu e diz: “o Céu em que eu toco é incomparavelmente mais. Eu represento o Céu, Deus Nosso Senhor, a sacralidade contra as hordas dos maometanos que invadem.

É, portanto, uma altaneria e uma estabilidade sacral. Aqui estiveram cruzados, este castelo foi contra os mouros.

A alma católica se exprime na parte superior da torre. A torre é tão lisa, mas, em cima dela as ameias e torreões se acumulam. Há qualquer coisa que leva para o alto e marca a sacralidade do castelo.

O contraste harmônico entre a altaneria e a estabilidade caracteriza também a sacralidade do castelo. Há qualquer coisa de indefinível da alma católica aqui presente. Só gente batizada, que entrou na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, pode ter imaginado um castelo assim e pode ter lutado ali contra os inimigos dessas virtudes com espírito sacral.


Ó altaneria católica, ó estabilidade católica, ó Divino Espírito Santo, estável e altaneiro!

O castelo simboliza Pentecostes com as línguas de fogo caindo. É uma maravilha.

Quando vier o Reino de Maria, e quando de novo a luz do Espírito Santo brilhar na terra, como será a altaneria e a estabilidade?

Se o Reino de Maria será mais do que a Idade Média, que altaneria e que estabilidade magnífica terá? O castelo de La Mota nos eleva até ao Espírito Santo, e tem uma projeção profética para o futuro.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 3.1.1975. Sem revisão do autor).

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

O castelo de Guimarães: nobre, de proporções distintas, sem nada de agressivo

Castelo de Guimarães
O castelo de Guimarães, em Portugal, localizado no distrito de Braga, tem uma certa nota da suavidade lusa.

É preciso ter estado em Portugal ou ter nas veias sangue português — e, por extensão, brasileiro — para poder saboreá-lo bem.

Esse castelo, todo de pedra, é um encanto.

Seu aspecto exterior é muito nobre, com janelas ornadas de vitrais contendo desenhos bastante harmoniosos.

Castelo de Guimarães, capelaAs proporções são muito agradáveis, sem apresentar nada de agressivo e sabendo guardar bem as distâncias e as hierarquias.

Diante dele, avista-se bem delimitado o campo de batalha de São Mamede, em que se travaram enfrentamentos militares dos quais resultou a independência de Portugal.

Para fazer uma comparação à maneira do turista moderno, sua dimensão equivaleria à área de uns três ou quatro campos de futebol.

Os reinos eram tão pouco povoados, naquele tempo, que batalhas aguerridas e nobres se efetuavam numa área com essa extensão, e o futuro de uma nação decidia-se assim.

A população da cidade de Guimarães promove festas nesse local.

Castelo de Guimarães, interior do Paço dos Duques

(Fonte: Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, sem revisão do autor. "Catolcismo". julho 2009)

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Neuschwanstein: grandeza harmônica afagante e ameaçadora

O castelo de Neuschwanstein foi construído pelo rei Luís II da Baviera (1845-1886) (foto).

Ele corresponde a uma concepção romântica ou wagneriana da Idade Média. Mas, é impossível não reconhecer muito valor, sobretudo à realização que ela aqui tem.

Luis II entrou para a história como o rei ao mesmo tempo casto e fabuloso, duvidoso e crapuloso, herói e lamacento. Foi uma figura ambígua que marcou a história da Baviera.

No castelo nós vemos um dos aspectos bonitos da alma do rei.

Ele era apaixonado pelas coisas medievais. E mandou construir este castelo com uma nota característica: na Idade Média não se construíam castelos assim.

E ele, ou o engenheiro que trabalhou sob orientação dele, imaginou um castelo não precisamente medieval, mas com todo o espírito medieval. De maneira que tem qualquer coisa que transcende o gótico.

No que? No senso de batalha, de combate e de dignidade afidalgada do homem medieval.

O castelo fica num panorama ultra favorável. Há no fundo um longo movimento montanhoso. E o castelo está num píncaro em relação às circunjacências, tendo como fundo lagos de água puríssima.

Neuschwanstein Também há uma floresta plantada que não é floresta virgem. Mas é tão densa e vigorosa que parece floresta virgem

Bem no meio está o castelo. Ele como que recebe sua força dos montes que desembocam nele, dominando tudo o que fica abaixo de um modo soberano.

Deita uma garra sobre a natureza como um rei que procede de uma genealogia fabulosa e domina os seus povos de um modo altaneiro.

Neuschwanstein é um verdadeiro herói que olha do alto os panoramas, e que se sente superior a todo o panorama que considera.

A primeira impressão que sugere Neuschwanstein é produzida pelo jogo das torres.

Sobretudo a mais alta, que desafia os montes que estão atrás, como quem diz: “eu não me contento apenas em jugular o que está abaixo, eu disputo, eu rivalizo com aquilo que está acima de mim, eu estou no píncaro do orbe, acima do que não há ninguém.”

Neuschwanstein, torre principalEssa torre é muito alta e se divide em motivos ornamentais. Tem um telhado cônico, muito pontudo também, que dá a sensação de um píncaro do universo.

Ela tem ameias e janelinhas. É uma torre própria para ser habitada.

Dentro pode haver um quarto de pedra com uma grande lareira, onde se queima madeira no inverno, com um vitral.

Lá a gente sente os ventos uivando no inverno ou experimenta a placidez da primavera ou do verão. É bem diferente de morar num prédio de apartamentos.

O edifício principal é constituído de três andares.

O castelo propriamente dito é o traço de união de duas fileiras que terminam por torres também. Essas torres não são iguais. Uma é a primogênita da outra.

O pátio do castelo recolhe toda a atmosfera de grandeza como numa taça. O pátio parece um grande terraço de onde se domina a natureza.

O corpo central de Neuschwanstein é um edifício de pedra ou tijolo avermelhado, com um portal magnífico que dá para um terraço, onde há uma última torre.

O conjunto das torres passa a idéia de hierarquia. Elas formam uma verdadeira sinfonia.

É a grandeza que se desdobra em graus até tocar os homens menores, se abrir para eles, afagar quem quer entrar com boa intenção.

Mas é uma ameaça para quem quer entrar com má intenção.

Porque este castelo tem qualquer coisa de fortaleza.

Quem entra de acordo com a vontade do dono com reta intenção, não há maravilhas que não possa encontrar aí dentro. Mas há uma ameaça para o criminoso inimigo.

NeuschwansteinA gente sente a existência, concreta ou possível, de sinistras masmorras embaixo, para castigar o crime.

É um castelo altamente simbólico.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 2/7/1970. Sem revisão do autor.)


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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Em torno do castelo se efetivou a promessa divina: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo"

Le Lude, França
Desde a “motte” primitiva, não encontraremos no castelo nada que lembre príncipes românticos nem torvos tiranos.

Há apenas, porém no mais alto grau, o ambiente para uma vida austera, temperante e cheia de espírito de sacrifício.

Através dos séculos, enquanto o castelo evolui — de um lado tornando-se mais poético e cheio de encanto, e de outro mais severo e importante — a vida nele continua no mesmo teor.

Porque na Idade Média os homens viviam com os olhos postos no alto, na eternidade, em Deus, e a existência terrena era para eles apenas uma provação transitória, na qual deveriam ajudar-se mutuamente como membros da mesma família — a família de Deus.

LochesEste é o sentido profundo da base familiar da sociedade feudal: uma cidade onde todos os homens, por mais humildes que fossem, tinham na estrutura social um lugar digno de filhos de Deus.

Onde os que estivessem por cima tutelavam e protegiam os que estivessem por baixo; e onde reinava entre os homens o espírito de caridade, respeito e união que existe numa família verdadeiramente católica.

Era o oposto, o contrário da civilização socialista, que nivela todos os homens e os deixa despersonalizados, isolados, desamparados ante o Estado todo-poderoso, sem vínculos que os unam, sem o carinho e o amor de que necessitam.

A glória do feudalismo lhe vem de ter sido feito por homens que foram fiéis à graça.

Quando os bárbaros arrasaram tudo, os primeiros senhores feudais poderiam ter-se deixado esmagar; era até normal que ante tal onda de devastação eles fraquejassem, como se deu em tantas circunstâncias análogas através da História.

Mas Deus lhes pediu um supremo esforço para que, sob o influxo da Igreja, da barbárie surgisse uma nova civilização de esplendor incomparável.

Warwick, interiorVerdadeiros cristãos, eles — e tantos outros depois — corresponderam à sua vocação.

Reagiram, enfrentaram a adversidade.

Com o suceder das gerações, aplicadas todas no mesmo esforço dirigido e fecundado pela Igreja, construíram a civilização cristã medieval.

O feudalismo foi, acima de tudo, a realização da promessa divina: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

Windsor, pátio interno do castelo real

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)

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