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terça-feira, 14 de maio de 2013

Combourg: exemplo da austeridade da vida dos nobres nos castelos

Chateaubriand, grande romancista do século passado, era filho do Visconde de Chateaubriand. A família possuía um castelo da Bretanha perto do mar: Combourg.

É um castelo enorme e a família era pequena, de maneira que não dava para encher todas as alas do castelo. Então o pai, para fazer o castelo habitado em todas as suas partes distribuía a família pelas várias partes do castelo.

E Chateaubriand –menininho de 9, 10 anos, mas já chamado nessa idade Monsieur le Chevalier –, quando chegava 21:00 horas em que o serão familiar se interrompia, recebia um castiçal com uma vela na mão e ia para uma torre perto do mar, onde uivavam todos os ventos.

Combourg fica perto da Mancha cujos ventos são famosos. É um dos trechos do mar mais agitado que há no mundo.

Os ventos todos sopravam por aquela torre, e Monsieur le Chevalier, por mais “Chevalier” que fosse tinha as reações de um menino diante do vento.

Tanto mais que em Combourg havia histórias de fantasmas, aliás de todo castelo se diz que tem fantasmas.

Quando chegava a noite no inverno, ele fechava a cortina em torno da cama. Esse cortinado formava uma verdadeira tendazinha em torno da cama, para que o calor das cobertas e do corpo fique conservado.

Então Monsieur le Chevalier subia alguns degraus para se encarapitar numa cama muito alta e muito grande onde Le Chevalier nadava.

Na torre os ventos uivando, uivando, uivando... E ele naquele cortinado, com pavor que, de repente, um fantasma pálido como a lua abrisse a cortina e olhasse para Monsieur le Chevalier.

Os nobres que eram educados assim, depois quando adultos faziam de tudo, como Chateaubriand. Todos eles eram aventureiros, porque ficaram habituados à aventura desde meninos.

Um velho ditado diz que em menino se torce o pepino. E é o hominho que vai fazer grande o homem.

Quem quiser ter grandes homens tenha grandes hominhos. Nada de educação tola para crianças, com bola boba para criança boba, nada disso.

Reconstituição do quarto de René de Chateaubriand
“Relegado ao lugar inabitado junto à entrada das galerias subterrâneas, não me passava despercebido um só dos murmúrios das trevas. Por vezes o vento parecia correr com passos ligeiros; por vezes exalava gemidos; bruscamente minha porta era sacudida com violência, os subterrâneos rugiam, e depois cessavam para recomeçar mais tarde. Às quatro horas da manhã, a voz do castelão (que era o pai dele) se fazia ouvir chamando o camareiro, sob as abóbadas seculares, ressoando como a voz do último fantasma noturno”.

Então, o último fantasma da noite diante do dia que nascia era o velho Chateaubriand, esquelético, alto, com um olhar que batia como uma pedra e que chamava.

Monsieur le Chevalier entendia que chegou a hora de escapar de lá e de voltar para o convívio dos vivos. Ele tinha passado uma noite inteira com os fantasmas.

A vida dos nobres medievais ‒ Chateaubriand não é da Idade Média, mas há muitas analogias ‒ era muito dura.

Por isso, a maioria da população gostava ficar no aconchego das classes populares, gordas, bem alimentadas, bem aquecidas, preocupadas apenas com o trabalho, a produção, o comércio, a família e a festa.

O nobre era o protetor e o garante da felicidade geral.

Mas, ele próprio no seu castelo, vivia uma vida austera que formava heróis para o dia em que o perigo se abatia sobre a região toda e ele tinha que sair o primeiro a expor a vida para salvar a todos.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 16.2.73. Sem revisão do autor)


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terça-feira, 7 de maio de 2013

Austeridade, luta e grandeza, o apanágio de Ronneburg

Castelo de Ronneburg: visão de conjunto
Castelo de Ronneburg: visão de conjunto
No castelo Ronneburg não longe da fronteira com a Áustria, pude dar-me conta do que é um autêntico castelo medieval.

Diferentemente dos castelos renascentistas — Fontainebleau, Chenonceau, mesmo Versailles e tantos outros — que à primeira vista nos encantam pela beleza, arte e bom gosto, o impacto produzido na sensibilidade por Ronneburg é de austeridade, luta, grandeza trágica e sublimidade.

Já a acolhida foi impactante. O fato de não haver turistas foi uma circunstância altamente favorável para podermos sentir mais autenticamente a alma do castelo.

Sim, Ronneburg tem alma, porque a alma da Idade Média ainda se faz presente ali.

Castelo de Ronneburg: visão interna do caminho de ronda
Castelo de Ronneburg: visão interna do caminho de ronda
Em Ronneburg percebem-se as características potentes do apogeu medieval (séc. XIII) como que latejando de vitalidade.

Os aspectos estuantes de energia, fortaleza e vida que se vislumbram nesse castelo, a seu modo um símbolo da Cristandade de outrora, produzem um frêmito de alegria e entusiasmo.

Ronneburg é uma portentosa amostra da luta contra os fatores adversos, que a civilização cristã teve que vencer e superar para realizar-se.

O castelo ainda evoca os combates contra as incursões inimigas, pobreza dos meios, dificuldade das construções e da sobrevivência numa natureza árdua; também a sublimidade das almas penetradas por uma fé que move as montanhas, com a inocência de uma criança e a determinação de um guerreiro.

As muralhas do castelo com suas seteiras dão testemunho da vigilância e da prontidão de espírito que era preciso ter para viver naquela época, a um tempo terrível e sublime.

Castelo de Ronneburg: cozinhas
Castelo de Ronneburg: cozinhas
A construção do castelo deu-se antes do ano 1231, numa colina escarpada, durante o reinado de Gerlach II, da dinastia dos Staufen.

É dessa época a “grande adega de vinhos”. A base da portentosa torre de pedra, com o calabouço, data da metade do século XIII.

Os habitantes das regiões circunvizinhas — Budingen, Selbold e Eckartshausen — tinham a seu cargo, cada uma, manter partes do castelo, mas possuíam também o direito de nele se refugiar, em caso de perigo.

Ao longo dos séculos Ronneburg passou por todo tipo de vicissitudes e transformações: foi sede de governo comunal, sofreu incêndios, teve partes demolidas e outras construídas, serviu como praça forte, como refúgio dos camponeses das redondezas durante ataques inimigos, e até como prisão de bandidos, guardando entretanto as marcas indeléveis de sua origem.

Um dos problemas que os construtores tiveram de enfrentar era o de abastecer de água o castelo. Para isso foi perfurado um poço, que até hoje lá se encontra, com cerca de 100 metros de profundidade, três vezes maior que a altura da torre.

Castelo de Ronneburg: sala de armas
Castelo de Ronneburg: sala de armas
O nível da água encontra-se a 12 metros no fundo do poço. Fizemos a experiência: da borda do poço, jogamos uma pedrinha e demorou um bom tempo para ouvirmos seu choque com a água. Lá está todo o aparelhamento de cordas, sarilho e balde adequados para retirar a água.

As dependências reservadas à família do castelão são naturalmente mais cuidadas, e já indicam sintomas da civilização requintada que então nascia. Mas a cozinha originária, com sua rusticidade e seu enorme pitoresco, ainda permanece.

As janelas gradeadas põem em evidência a preocupação com a defesa do castelo, tão necessária naqueles tempos de perigos e de lutas, de fé e de heroísmo.

A beleza que sobressai em Ronneburg não é a da arte, mas sim a das almas fortes e piedosas que produziram o apogeu da Idade Média, época que mereceu do Papa Leão XIII o magnífico elogio:

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados, [...] a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas a categorias e todas as relações da sociedade”.

(Autor: Gregorio Vivanco Lopes, em “Catolicismo”)



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terça-feira, 23 de abril de 2013

Alcácer de Segovia: castelo do heroísmo altaneiro


O Alcácer de Segovia poderia chamar-se heroísmo altaneiro! Porque suas torres desafiam o adversário de sobejo, de peito aberto!

Ele avança em direção ao abismo como quem desafia e já pisa o adversário para todo sempre.

O Alcázar de Segovia é um palácio fortificado em pedra, na cidade velha de Segovia, Espanha. É um dos mais distintos castelos-palácios da Espanha e tem forma de proa de um navio.

As origens do castelo remontam a uma fortificação construída durante a dominação romana nos primeiros séculos de nossa era.

Veja vídeo
Castelo de Segovia
Também foram identificados restos que falam de uma presença islâmica durante a época da invasão muçulmana iniciada no ano 711, século VIII.

Porém, o primeiro documento escrito que fala do castelo é do ano 1120, quer dizer de 32 anos depois de a cidade de Segóvia ser recuperada pelos cristãos.

Naquela época se tratava de um forte de madeira construído sobre velhas fundações do quartel romano.

O rei Afonso VIII de Castela (1155-1214) ergueu a primeira fortificação de pedra.

Ao longo da Idade Média foi uma das residências favoritas dos monarcas de Castela e foi a fortaleza chave na defesa do reino.

A maior contribuição individual para o alcázar foi do rei João II de Castela (1405-1454). Esse rei construiu a “Torre Nova”.

Em 1474, foi coroada neste castelo Isabel como Rainha de Castela e Leão. Também nele, a rainha Isabel casou com Fernando II de Aragão.

Em virtude do casamento se reuniram os dois maiores reinos da Espanha.

O Papa deu ao casal real formado por Fernando e Isabel o merecido título de “Reis Católicos” que ainda usam os reis da Espanha. Eles financiaram a descoberta de América por Colombo.

O poderoso Filipe II de Espanha (1527-1598) adicionou afiados pináculos de lousa para o assemelhar aos castelos da Europa Central.

Segovia: tronos de Fernando e Isabel, primeiros "Reis Católicos"
Segovia: tronos de Fernando e Isabel, primeiros "Reis Católicos"
Quando a Corte Real mudou-se para Madrid, o alcácer teve vários destinos até ser danificado severamente por um incêndio.

Em 1882 começou a ser restaurado. Em 1896, o rei Afonso XIII cedeu-o para colégio militar.

A música que acompanha o vídeo provém do “Cancionero de Palacio” (Madrid, Biblioteca Real, séculos XV e XVI).

Trata-se de um manuscrito que contém música espanhola do período histórico que coincide aproximadamente com o reinado dos Reis Católicos muito ligados eles próprios ao Alcácer.

Até nós só chegaram 469 peças nele incluídas. As obras são essencialmente de músicos espanhóis e as letras, além do castelhano, incluem algumas em francês, português e outras línguas.



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terça-feira, 16 de abril de 2013

Delicadeza e força no lago de Bled: imagem da feliz união da Igreja com o Estado católico

Bled: feliz concórdia entre a Igreja e o Estado católico
Bled: feliz concórdia entre a Igreja e o Estado católico
O lago alpino de Bled, no noroeste da Eslovênia, encerra tesouros da natureza, da civilização e do catolicismo.

O mistério religioso bom e o requinte cultural racional se associam num panorama natural extremamente sugestivo.

De acordo com os escritos mais antigos conhecidos, o primeiro aldeamento humano já existia em 1004. O nome do local é anterior às próprias origens eslavas da Eslovênia.

Bled pertenceu à “marca” de Carniola, concedida naquele ano pelo imperador Santo Henrique II ao bispo Albuíno de Brixen.

A “marca” era um feudo militar criado habitualmente numa área fronteiriça ameaçada ou vulnerável.

Naquela época, a ameaça procedia sempre dos povos bárbaros ou dos muçulmanos.

Origem do castelo

O “marquês” — chefe da “marca” – tinha a incumbência principal de defender o feudo de espada em punho. Foi nesses tempos e circunstancias que nasceu o imponente e aparentemente inexpugnável castelo de Bled.

Situado nos bordes de um precipício sobre o lago, ele impressiona pela sua inacessibilidade e austeridade. Mas, estas eram virtudes para os fundadores e os residentes dos primitivos castelos.
Bled: precipício é garantia de defesa
Bled: precipício é garantia de defesa

A população vizinha contribuía para que os castelos fossem construídos assim, pois lhe serviriam de refúgio caso os inimigos da civilização e do cristianismo invadissem a região.

Ela se defenderia nele, sob a liderança de belicosos senhores.

No caso, o nobre senhor do castelo de Bled era um bispo. Não era estranho naquela época que os prelados pegassem em armas contra os inimigos do povo de Deus.

Ainda não havia aparecido o ecumenismo fajuto que não visa a converter os não batizados, mas tão-só a lhes abrir as portas, pondo em grave risco a cultura e a própria Igreja.

Após o bispo Albuíno, o imperador Santo Henrique II doou a “marca” ou marquesado para o seu sucessor na diocese, o bispo Adalberão de Brixen.

Porém, na tarefa de pacificação da Idade Média, a Santa Sé, tirou prudentemente os eclesiásticos da guerra. E o castelo passou para nobres leigos.

O marquesado de Carniola com seu castelo de Bled passou assim ao duque Rodolfo de Habsburgo como prêmio de sua vitória sobre o rei Ottokar II da Boêmia, na batalha de Marchfel em 1278.

De 1364 a 1919, ou seja, até o fim do Império Austro-Húngaro, Bled fez parte do ducado de Carniola, salvo num breve período entre 1809 e 1816, quando a Europa sofreu os rearranjos geográficos espúrios e caprichosos de Napoleão Bonaparte.

O Santuário na ilha

O castelo ergue sua figura militar sobre um belíssimo lago muito procurado pelos visitantes de bom gosto.
A ilha santuário tendo ao fundo, no alto, o castelo
A ilha santuário tendo ao fundo, no alto, o castelo

Nesse lago há uma ilhota onde sobressai a esbelta e delicada torre da Igreja da Assunção de Maria, local de peregrinação.

O som de seus sinos, segundo os moradores, traz sempre um bom prenúncio.

Antes da ereção dessa igreja, os pagãos cultuavam no local uma deusa lasciva e torpe.

À ilha só se chega hoje de lancha, que ancora aos pés de uma grande escadaria de 99 degraus através da qual se ascender ao santuário em honra da gloriosa Assunção ao Céu de Nossa Senhora, a Virgem Imaculada.

Feliz concórdia entre a Igreja e o Estado

Bled: pátio interior do castelo
Bled: pátio interior do castelo
Enquanto o castelo representa a força, o perigo e a determinação de resistir qualquer ataque, o santuário encarna a delicadeza, a segurança e o aconchego, o movimento suave e maravilhoso para o Céu.

O santuário de Nossa Senhora não poderia existir com essa segurança e despreocupação se o castelo não estivesse aí para defender toda a região.

E o castelo ficaria um pouco tosco e pesado se não tivesse a seu lado a jóia da ilha com a sua igreja da Assunção.

Assim é a boa união que num ambiente católico deve haver entre a Igreja e o Estado.

Bled: no inverno, o mistério envolve o lago
Bled: no inverno, o mistério envolve o lago
O Estado católico protege a Igreja e esta abençoa e faz descer dos céus as graças que com um charme discreto amenizam as formas materiais do Estado.

No inverno, uma densa bruma envolve o lago de Bled, quase tirando a vista do formidável castelo e da delicada ilha-santuário.

O mistério toma conta do ambiente. Mas trata-se de um mistério bom, o qual convida a considerar os grandes mistérios da religião católica.

O lago passa então a constituir um ambiente quase de conto de fadas.

Se não existisse esse feliz consórcio entre o Estado e a Igreja representado pela fortaleza e pelo santuário de Bled, a realidade seria outra. Por certo, pesada, ameaçadora e malfazeja.



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