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quarta-feira, 18 de março de 2026

ROQUETAILLADE: 700 anos na posse de uma mesma família

Entre guerras e reformas o castelo ficou sempre com uma mesma continuidade familiar
Entre guerras e reformas o castelo ficou sempre com uma mesma continuidade familiar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O castelo de Roquetaillade fica em Mazères, na região da Gironda França. É constituído por duas fortificações, uma do século XI e outra do século XIV, uma perto da outra num mesmo recinto.

O palácio foi salvo no século XIX pela restauração de Viollet-le-Duc, que empreendeu igualmente importantes trabalhos de decoração e criação de mobiliário.

Roquetaillade encontra-se há 700 anos na posse de uma mesma família e foi aberto ao público em 1956.

O lugar foi habitado desde a pré-história. Grutas naturais e um pico rochoso eram favoráveis a uma instalação humana. Os numerosos “S” talhados, encontrados no lugar, testemunham essa presença.

No entanto, a menção a uma fortificação em Roquetaillade só surge pela primeira vez em 778.

Nessa data, Carlos Magno, a caminho dos Pirenéus com o seu sobrinho Rolando (o qual inspiraria a célebre La chanson de Roland, poema épico do século XI), reagrupou o seu exército em Roquetaillade.

E ali construiu com madeira uma fortificação que fazia lembrar os castros romanos. Foi o primeiro castelo de Roquetaillade. Uma construção por certo primária e transitória que deu a partida a reconstruções que chegaram até nossos dias.

Essa construção evoluiu ao longo dos tempos, tendo a técnica da pedra substituído a da madeira.

Roquetaillade cresceu incluindo novas torres, muralhas e outras construções defensivas.

Roquetaillade, Grade Salão do castelo, aquarela de 1848.
Roquetaillade, Grade Salão do castelo, aquarela de 1848.
A última construção foi a torre-porta, em 1305, única passagem entre o coração do castelo e a aldeia, chamada Castelnau, que se estabeleceu sob sua sombra protetora.

Não há dados dos senhores de Roquetaillade anteriores ao século XI, no qual aparece nos arquivos o nome La Mota (ou La Mothe).

A única certeza é que o castelo permanece propriedade da mesma família, do século XI até os nossos dias.

Em 1306, o Cardeal de la Mothe, sobrinho do Papa Clemente V, construiu uma segunda fortaleza em Roquetaillade. É o chamado: o “Château Neuf” (Castelo Novo).

Sua planta é quadrada, tem cinco torres, além de uma torre de menagem [estrutura central de um castelo medieval]. Esta construção aliava a arte militar e a necessidade de defesa, ao conforto.

Assim, Roquetaillade, como outros palácios do fim da Idade Média, foi dos primeiros exemplos de palácio/castelo-forte em França.

A Guerra dos Cem Anos poupou totalmente o castelo. Aliás, nessa época os senhores de Roquetaillade eram principalmente eclesiásticos, não envolvidos nesse conflito.

Tampouco as guerras de religião promovidas pelos protestantes calvinistas fizeram muito dano à região da Gironda. Somente a pequena comuna de Villandraut foi atacada pelos protestantes, que viam nela um símbolo papal.

Foi bem diferente com a Revolução Francesa. Movidos pelo ódio igualitário contrário à nobreza, bandos revolucionários democráticos de Bordeaux se dirigiram a Roquetaillade para demoli-lo.

O Marquês de Lansac mostrou então como a nobreza sabia interpretar a psicologia de todos, inclusive desses bandidos ideológicos. Acolheu-os no lugar, dobrou o soldo deles, e convidou-os a descer à cave do palácio para provar o seu vinho.

Os revolucionários acharam-no de tal forma bondoso, que abandonaram seu objetivo demolidor.

Quarto de dormir.
Quarto de dormir.
Roquetaillade sobreviveu às revoluções da história. Mas no século XIX viria a mais insidiosa dela: a Revolução da modernidade.

O castelo não era “moderno”, não afinava com as chaminés soltando fumaça da Revolução Industrial, era incompatível com a locomotiva, com o carro, com as linhas férreas e os viadutos.

Ficou abandonado e já no início do século XIX se encontrava em mau estado.

Mas com o renascer do interesse da população pelo “sonho medieval”, Roquetaillade tornou-se um dos primeiros edifícios medievais do Sudoeste a beneficiar-se da proteção do governo.

Por volta de 1850, a família Mauvezin, que o possuía, recorreu ao mais célebre arquiteto francês, Viollet-le-Duc, responsável pelo governo da restauração dos grandes prédios medievais.

Ajudado por Duthoit, um de seus alunos, ele passou cerca de 20 anos cuidando do restauro do palácio.

Ele se aplicou sobretudo na decoração do interior e do mobiliário.

A decoração de Roquetaillade, que se pode ver atualmente, é única na França e está classificada como monumento histórico.

O parque do castelo compreende os vestígios do recinto medieval com a barbacã, o riacho de Pesquey e as suas ribas, além de um chalé novecentista e o pombal do Crampet.


Vídeo: Roquetaillade : 700 anos de história de uma família










(Fonte: Wikipedia, Castelo de Roquetaillade)



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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

PIERREFONDS: triunfo do verdadeiro progresso

Pierrefonds uma restauração que foi um progresso na linha medieval
Uma restauração que foi um progresso na linha medieval
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Castelo de Pierrefonds é um imponente palácio fortificado, situado no bordo sudeste da Floresta de Compiègne, a norte de Paris, no departamento de Oise.

Ele apresenta a maior parte das características defensivas da Idade Média.

No século XII, já se elevava um castelo no lugar dito de "le Rocher" de Pierrefonds (O Rochedo de Pierrefonds).

Em 1392, o Rei Carlos VI dá-lo a seu irmão Luís de Valois, Duque de Orléans.

Este último oferece o castelo original às Irmãs do Santo Suplício e, de 1393 à sua morte em 1407, faz construir um novo edifício pelo arquiteto da Corte, Jean le Noir, na localização atual.

No reinado de Luis XIII, o castelo ficou na propriedade de François-Annibal d'Estrées que se engajou numa rebelião do "Partido dos Descontentes".

O palácio acabou sendo invadido pelas tropas do Cardeal Richelieu, Secretário de Estado da Guerra.

Pierrefonds sala dos Heróis
Pierrefonds: a sala dos Heróis
A ordem foi desmantela-lo, mas era tão grande que a tarefa não foi completada.

As fortificações exteriores foram arrasadas, as caras destruídas e foram praticadas sangrias nas torres e nas muralhas.

O palácio ficou em ruínas durante dois séculos.

Ao longo do século XIX, houve uma redescoberta da arquitetura da Idade Média.

Napoleão III mandou em 1857 o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc empreender o seu restauro.

O restauro devia limitar-se a uma simples recuperação das partes habitáveis conservando as ruínas "pitorescas" como decoração.

Porém, o desejo social e cultural de recuperar essa joia medieval, levou o passageiro imperador a mandar fazer uma residência imperial.

Os trabalhos de reconstrução foram empreendidos com ardor por Viollet-le-Duc até sua morte.

Viollet-le-Duc foi além da mera recuperação histórica. Embora imensamente erudito, ele fez mais um palácio de fábula imaginando como terá sido sem se basear estritamente na história do edifício.

Reconhece-se na arquitetura exterior recuperada, os excelentes conhecimentos que tinha da arte do século XIV.

O genial restaurador cuidou do parque como e das fortificações, dando livre curso à sua inspiração muito pessoal, e sendo muito criticado pelos rigoristas amantes de velhos papéis.

Pierrefonds vista aérea
Pierrefonds: vista aérea
Viollet-le-Duc fez de Pierrefonds uma de suas mais amadas e triunfantes realizações. Após sua morte antes do fim das obras, seu estilo foi preservado até terminar a construção.

O castelo nunca voltou a ser habitado.

Os detratores reprovaram a reinvenção de uma arquitetura neo-medieval, mas ficaram vencidos pelo feliz resultado.

Viollet-le-Duc fez mostra nesta reconstrução de um extraordinário sentido de elevação e de volumetria e de uma incontestável sensibilidade do local, de um conhecimento do espírito medieval em sua glória.

Ele venceu um espírito meramente arqueológico e, como os medievais outrora, aproveitou a reconstrução para dar uma passo para frente no sentido da tradição, do requinte e da perfeição.




Vídeo: Pierrefonds, um castelo e seu sonho







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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

O Monte Saint-Michel
é uma centelha do absoluto divino

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O que é o Mont Saint-Michel: uma abadia? Sim, certamente. Um castelo-fortaleza militar? Também sim e também certamente.

Mas essas respostas não satisfazem inteiramente. Foi um abadia militarizada na sua estrutura material que resistiu a todas as guerras. Nunca foi tomada pelo inimigo.

Para isso ajudou o fato de estar construída numa ilha isolada da terra pelas mais violentas marés do planeta.

Eu pessoalmente fiquei com uma impressão profunda quando o visitei. Fiquei achando que lá mora o próprio São Miguel Arcanjo. E que ele é o senhor feudal, o super-abade, o comandante invincível. Estarei certo?

Fica aberto aqui um tema de discussão.

O certo é que a abadia-fortaleza medieval ficou abandonada até o século XIX. No início desse século languidescia como vil prisão pública, aliás muito desleixada, e que caia em ruínas.

Alguns famosos viajantes escreveram páginas maravilhosas sobre essa joia da Cristandade. Os relatos sensibilizaram a fundo a alma francesa. E os governos acharam melhor conceder ao clamor público e encomendaram ao arquiteto Eugène Emannuel Viollet-le-Duc (1814 — 1879) supervisionar o restauro.

Aliás, o restauro continua até hoje. Mas muita coisa foi avançada e milhões de turistas podem hoje visitar essa residência de anjos guerreiros.

Crê-se que a abadia do monte Saint-Michel começou em 708, quando São Aubert, bispo de Avranches, fez construir no monte Tombe um santuário em honra a São Miguel Arcanjo (Saint-Michel).

O santo bispo foi um verdadeiro chefe de guerra. E não de qualquer guerra. Ele liberou seus fiéis de um imundo e feroz dragão que atacava os homens. Fazendo o Sinal da Cruz e jogando sua estola sobre o animal infernal, lhe ordenou de se afundar no mar e nunca mais ressurgir.

Após a vitória, o arcanjo São Miguel que contemplou aprazido a batalha espiritual desde o Céu, apareceu ao santo bispo em sonhos.

E lhe pediu erigir uma fortaleza abadia em sua honra, no mesmo local onde São Aubert havia derrotado o Maligno.

Já no ano mil existiam livros enchidos com o registro dos milagres que nesse santuário se operavam.

No restauro da abadia do Mont Saint-Michel no século XIX, o arquiteto Viollet-le-Duc deu o golpe de gênio da vida dele.

Ele encontrou, na agulha que ergueu no Monte Saint-Michel, a mais fina realização que coroa a beleza do monte-abadia.

E o mundo inteiro, quando vai lá, vai ver a agulha que Viollet-le-Duc pôs, não vai ver aquela montanha de pedras.

Ao se observar o Monte Saint-Michel, é impossível não sentir entusiasmo diante daquela flecha da Abadia.

O entusiasmo incide propriamente ali.

Sem a flecha, o conjunto perde muitíssimo.

O mesmo não ocorre com a catedral de Notre Dame, que é um escrínio, em que cada parte é bonita.

No Monte Saint-Michel, não: é bonito só porque Viollet-le-Duc — grande especialista em coisas da Idade Média — soube pôr aquela torre central, com aquela flecha, que da uma unidade maravilhosa à construção dispersa e faz com que aquilo seja o ponto de atração de turistas do mundo inteiro.

Há uma centelha do absoluto ali? Onde está?

O observador atento percebe que o edifício todo tende para uma unidade suprema ‒ um unum (fator de unidade), dir-se-ia filosoficamente ‒ e que o edifício é belo em razão daquele unum.

Aquela beleza suprema que define totalmente o Monte parece desprender-se da terra e subir para o céu.

Sobe, sobe... acaba numa flecha tão fininha que dá a impressão de que se dissolve no ar e chega até o seio de Deus.

É, portanto, algo tão bonito que, por ter certa analogia com as belezas de Deus.

Nele se vê a Deus.

E a visão de Deus nessa agulha nos dá a sensação do absoluto divino.

A agulha nos comunica uma centelha do absoluto de Deus.


Apud “A inocência primeva e a contemplação sacral do universo no pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira”, Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, São Paulo, 2008


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