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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Altivez de CHEVERNY

Cheverny, fachada
Cheverny: castelo altivo, discreto, gracioso, cheio de história familiar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








A altivez do castelo de Cheverny está no que ele tem de mais gracioso.

Ele como que sai de dentro de um mundo de delícias e de mistérios.

É como quem diz:  

“Forte eu sou, mas sobretudo eu me prezo de ser inteligente. Em última análise, sou completo. Sou dotado de inteligência e de força. Sou equilibrado”.

O Castelo de Cheverny fica no vale do Loire, na região de Sologne, comuna de Cheverny.

A matilha não avanca sobre o almoco enquanto não receber ordem.
Depois devora tudo num abrir e fechar de olhos
Atualmente também é célebre pela educadíssima – se assim se pode dizer – matilha de cães que participam regularmente de elegantes caçadas de veados feitas à cavalo.

As terras do castelo foram compradas por Henri Hurault, Conde de Cheverny, Tenente General dos Exércitos do Rei de França e Tesoureiro Militar do Rei Luís XI (1423 – 1483), do qual o proprietário atual, o Marquês de Vibraye, é descendente.

Entretanto, a propriedade do castelo passou por vicissitudes históricas, como todo castelo que se preza.

Cheverny, armadura
Interior do castelo
A Coroa se apropriou dele após denúncias de fraude, e o Rei Henrique II o doou à sua infame amante Diane de Poitiers.

Essa venal mulher preferia o castelo de Chenonceaux e vendeu a propriedade ao filho do primeiro proprietário, Philippe Hurault, que construiu o atual palácio entre 1624 e 1630.

A decoração foi acabada pela filha de Henri Hurault e de Marguerite, a Marquesa de Montglas, cerca de 1650.

Durante os cento e cinquenta anos seguintes, o palácio mudou muitas vezes de proprietário, mas em 1824, voltaria a ser comprado pela família Hurault.

Essa nobre família continua a habitar em Cheverny, tendo-o tornado num incontornável château do Loire.

Ele é famoso quer pelos seus magníficos interiores, quer pela sua coleção de objetos de arte e de tapeçarias.

O castelo é talvez um pouco discreto demais, mas foi realçado pela perspectiva.

Fica num grande parque, envolto por um simples, mas esplêndido tapete de esmeraldas para lhe servir de apresentação.

Ao longe, arvoredos formando a moldura.

A clareza e a lógica cercadas pelos imponderáveis: mais uma forma de equilíbrio.

Não é verdade que um dos prazeres da vida, que tornam a existência humana digna de ser cristãmente vivida, é analisar as coisas dessa forma?

Mas analisar com os olhos postos no Céu.

Porque esses são valores de espírito, e a civilização que os gerou foi cristã.

São assim, porque por eles foi derramado o precíossimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.



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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 2

Sala dos Estados é a mais antiga sala gótica da França
Sala dos Estados é a mais antiga sala gótica da França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






continuação do post anterior: Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 1



A Sala dos Estados é a mais antiga sala gótica da França, destinada a uma finalidade temporal.

Foi Sala de Justiça dos condes de Blois, e depois albergou os Estados Gerais – espécie de Assembleia nacional extraordinária – em 1576 e 1588.

Era costume dos senhores feudais administrar justiça.

São Luis fazia-o embaixo de uma árvore famosa do bosque de Vincennes, então na periferia de Paris.

E se pudéssemos assistir em espírito a essa cena?

Capela do castelo de Blois
Capela do castelo de Blois
Posteriormente a nobreza foi transferindo o poder de julgar a uma categoria especial: a dos juízes.

E assim forma se especificando os poderes fundamentais da sociedade na Idade Média.

A torre circular de Foix é um dos vestígios da fortaleza medieval. Ela defendia o sul oeste do castelo.

No século XIII o castelo passou para a família de Châtillon, originária da Borgonha, que depois o passou para a família de Orléans.

Em 1429, antes de partir para liberar Orléans, Santa Joana de Arco se fez abençoar na capela do castelo pelo arcebispo de Reims, D. Renault de Chartres.

Quem lembrar desse fato ao visitar a capela tirará um suco especial da visita.

Vista aérea do castelo de Blois
Vista aérea do castelo de Blois
Em 1462, nasceu o futuro rei Luis XII e em 1498 o castelo medieval se tornou residência real. Luis XII o escolheu como sua residência principal. E assim ficou sendo durante o reinado da dinastia de Valois.

Louis XII reconstruiu-o em estilo gótico tardio, acrescentando a capela de Saint-Calais. Blois testemunhou grandes fatos nesse período: o casamento de César Borgia em 1499 e de Guilherme IX, marquês de Montferrat em 1508. Por ele passou também o famoso mais cínico Nicolau Machiavelo.

Sob Francisco I o castelo atingiu um auge de enriquecimento. Francisco I, porém foi um rei pomposo mais volúvel como o espírito da Renascença que abandonava o espírito medieval.

Porém, a decadência de costumes do Renascimento produziu funestos frutos.

Em 18 de outubro 1534, no castelo foram distribuídos panfletos protestantes contra a Missa católica, inclusive na porta do quarto do rei.

O fato marca o início das violências que culminariam nas guerras de religião.

Assassinato do duque de Guisa. Paul Delaroche (1797-1856), Musée Condé, Chantilly
Um quarto fala especialmente desse sombrio período histórico. É o próprio quarto do rei.

Nele, Enrique II – rei tudo penetrado das molezas e vilanias do espírito renascentista – fez assassinar ao duque de Guisa chefe do partido católico. No dia seguinte fez matar ao cardeal de Lorena, irmão do duque.

Conta-se que Enrique II cinicamente, contemplando o cadáver do duque de Guise que era muito alto, teria dito:

«Mon Dieu, qu'il est grand ! Il paraît même plus grand mort que vivant !» “Meu Deus, como ele é grande! Ele parece até mais grande morto do que vivo!”.

O castelo ficou como tocado pelo crime. Após as guerras de religião, Luis XIV se desinteressou por ele e Luis XVI pensou em destruí-lo logo antes da Revolução Francesa.

Mas, a destruição não chegou a se consumar e o castelo ficou quartel do Royal Comtois, um regimento de cavalaria, e após a Revolucao foi decaindo.





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quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 1

Pavilhão renacentista-medieval
Pavilhão renacentista-medieval
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Os castelos condensam a história de sua região ou de seu país.

Os grandes fatos que neles se deram ficam registrados como num livro vivo aberto a todos que sabem lê-lo.

Eles mantêm os ambientes onde se passaram fatos memoráveis, bons ou maus, e como que estão habitados pela presença dos personagens que neles participaram.

É o caso do castelo real de Blois no vale do rio Loire, na França.

Estátua do rei Luis XII, na fachada do pátio interior
Durante o reinado de Carlos o Calvo, em 854, foi edificado o Blisum castrum — “o castelo de Blois” sobre a ribanceira do rio Loire, rio que divide a França pelo meio.

O motivo foi forte: a região era atacada pelos Vikings que entravam rio sdentro tudo devastando.

Quem hoje passa ao pé da fachada de pedra que dá para o rio pode imaginar esses furiosos vikings com seus cascos com chifres tentado escalá-la em luta com os defensores

A fortaleza ficava no cerne do feudo dos condes de Blois, poderosos senhores feudais dos séculos X e XI cujas terras iam desde Chartres até a Champagne.

O conde de Blois comandava a I Cruzada durante o cerco de Antioquia.

A situação da empresa militar, num certo momento, ficou muito difícil para os cruzados, eles estavam quase perdidos e o conde de Blois voltou para a França.

De retorno ao castelo, sua mulher Adelaide de Blois o expulsou de casa, e mandou-o voltar para a Cruzada.

Ele retornou para a Cruzada e morreu heroicamente na batalha de Ramla.

Dormitório da Rainha
Dormitório da Rainha
Ela, então, foi para convento de Massigny, da linha feminina de Cluny, e ficou monja beneditina e abadessa.

Era filha de Guilherme o Conquistador, que conquistou a Inglaterra. Ela era uma mulher virtuosíssima e incentivou muito o marido para ir à Primeira Cruzada.

Seria interessante passear pelas partes medievais imaginando esta singular “briga de casal”.

A primeira fortaleza, dita a “grande torre” foi erigida por Thibaud le Tricheur no século X.

Uma gravura de por volta de 1080, mostra a Thibaud III julgando “na fortaleza de Blois, no pátio posterior do castelo perto da torre”.

Continua no próximo post: Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 2



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quarta-feira, 20 de março de 2024

BRISSAC: faustoso marco de fatos heroicos

Brissac faustoso marco de fatos heroicos
Brissac faustoso marco de fatos heroicos
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na região de Anjou, em pleno Vale do Loire, surge um castelo que pertence à mesma família desde 26 de maio de 1502.

Naquela data o gentil-homem René de Cossé ganhou a senhoria de Brissac pelo favor do rei Francisco I (1515 – 1547), comprou o castelo e acrescentou Brissac a seu nome.

O atual marquês e a marquesa de Brissac moram nele hoje com seus quatro filhos. Mas não é o único castelo familiar da região delimitada pelas vizinhas regiões de Bretanha e Touraine.

No Anjou, além de igrejas, capelas, priorados, abadia, commanderies, uma catedral e um bispado se contam por volta de cinquenta grandes mansões e, sobretudo, um número incontável de castelos familiares de todos os tamanhos e importância.

Brissac é um dos mais brilhantes dessa constelação.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

MARÇAY: força, simplicidade e encanto

Luis Dufaur
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À beira da estrada, um “castelinho” cheio de beleza e dignidade transmite um sorriso encantador.

Seu nome é Marçay, o mesmo da localidade, no vale do Loire, na França.

De onde vem seu encanto?

É porque ele é ao mesmo tempo forte e tem algo de brinquedinho.

O teto é em “V”, com ângulo muito fechado e a pedra é forte.

Ele é de uma época em que já não eram construídos os castelos militares medievais mas conservavam-se os que existiam.

À parte medieval se acrescentavam modificações mais recentes.

O teto ainda é muito pontudo “en poivrière” ‒ poivre é pimenta, a poivrière se usava antigamente na mesa para conter a pimenta e tinha essa forma.

As torres redondas eram feitas para suportar arremetidos de toda ordem.

Posteriormente, com o desaparecimento gradual das guerras feudais, foram abertos nelas alguns orifícios.

A parte superior da torre tem um diâmetro maior e uma porção de arcozinhos ajudam a suportar essa parte. Qual é a razão disso?

É que a defesa militar da torre está na naquela parte do alto. Ali ficavam os soldados que defendiam a torre.

Eles se defendiam atirando setas sobre os que sitiavam o castelo através de seteiras estreitas, janelas pequenas através das quais eles jogavam coisas sobre os assaltantes.

De outro lado, nesses arcozinhos o chão era furado, e através dos rasgos postos no chão, eles também jogavam coisas contra os soldados que procuravam aproximar-se da torre.

Essas torres devem em ter tido em volta um fosso com água. Então, se compreende a dificuldade de conseguir vencer essa torre.

Há uma torre quadrada, mais ou menos com a mesma estrutura das redondas.

Depois há uma torrezinha que dá acesso a uma pequena porta que antigamente devia ter um pontezinha levadiça. As torres defendiam essa entrada.

Deve ter havido no castelo partes antigas que se incendiaram, ou foram demolidas, ou arrasadas e foi construída uma edificação mais recente em que a preocupação da guerra transparece pouco ou nada.

A parte nova tem chaminés e janelas já bem altas e largas, e algumas quase ao alcance do chão.

Aparece uma preocupação exclusivamente ornamental.

Não há ameias nem passeio de ronda, nada disso, ela é feita para acomodações agradáveis, confortáveis.

O castelo, porque é muito mais alto do que achatarrado, tem qualquer coisa de leve e até de brinquedinho.

O telhado é todo revestido de ardósias, que é um material muito bonito e tem a vantagem de ser incombustível.

Em caso de guerra se jogam setas incendiadas, batem na ardósia e cai no chão. Ardósia é pedra, não pega fogo.

A preocupação de ser delicado, tão característica da arquitetura post medieval ali começa a aparecer, a sorrir.

O castelo tem em torno de si um bosque bonito e uma pradaria grande.

A desproporção entre a altura e a parte do castelo que pousa no chão é que dá a leveza e a graça do castelo.

O parque é muito agradável e bonito.

Há cadeiras de parque brancas colocadas em vários lugares.

O dia era lindo, a vegetação quase não se movia, não ventava, havia uma espécie de louçania, de doçura que estava esparsa pela ar, mas que parecia brotar até da terra.

A vontade que eu tive era de propor aos meus companheiros de viagem de ficarmos umas duas ou três horas conversando assuntos diversos, numa agradável prosa sem eira e nem beira, e estritamente impedido de introduzir qualquer assunto administrativo.

Mas nós tínhamos um calendário marcado e não era possível.

Foi, portanto, com certo pesar que eu me despedi do castelo de Marçay.


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