terça-feira, 14 de agosto de 2018

Conversas à luz de vela no castelo de Saint-Fargeau

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Ao cair da tarde, ao final do século XIX, os empregados em libré percorriam os quartos, os vestíbulos, a sala de bilhares, as salas de jantar, salões e boudoirs acendendo, aos poucos, como numa cena de contos de fadas, as lamparinas do tempo de meu pai.

Um teatro de sombras, que não conheci, animava-se na noite. Lá estava um ancião, mas não era meu avô, era o pai de meu avô.

Juntos ao bispo, o vigário, um general previamente tirado de Prévert, dois coronéis, visitantes hospedados desde cinco ou seis meses, nossos primos da Bretanha ou da Provence.

Não compareciam nem préfets de police, nem banqueiros.

E, cercados de lacaios em uniforme azul à la française conduzindo candelabros, todo esse bonito mundo esvaecido passava, em cortejo, à sala de refeições.

Nem tentemos imaginar o que se conversava à mesa. Nada de genial, imagino.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nuvem dourada nas ruínas do castelo de Conway

Conway ruinas envolvidas pela luz dourada do passado da Civilização Cristã
Conway ruinas envolvidas pela luz dourada
do passado da Civilização Cristã
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Castelo de Conwy (em inglês: Conway Castle; Castell Conwy em galês) está localizado, na costa norte do País de Gales, Reino Unido.

Ele é considerado uma das obras primas da humanidade no gênero.

A construção demorou entre 1283 e 1289 com quinhentos operários trabalhando estavelmente.

Foi o castelo mais caro construído pela realeza até aquele momento, embora seu milionário custo em valores atualizados (162 milhões de libras) não chama a atenção se comparado às empreitadas hodiernas.

O fortaleza militar sobre o rio Conwy tinha a finalidade de garantir o domínio da casa real inglesa sobre o Principado de Gales que durante muito tempo foi independente e orgulhoso de sua alteridade étnica, cultural e dinástica.

Os galeses eram celtas e os ingleses anglo-saxões governados por uma casa real normanda vinda da França com Guilherme o Conquistador.

Esse legítima alteridade se preserva ainda hoje em muitas atividades culturais e até esportivas.

Porém sob o bafo harmonizador da Civilização Cristã, os dos reinos acabariam se fundindo de modo feliz sem se despersonalizarem.

A dinastia dos Tudor que reinou longamente na Inglaterra desde o fim da Guerra das Rosas, de 1485 a 1603, teve início no século XII, com Ednyfed Fychan de Tregarnedd (1179-1246), senescal do Príncipe de Gwynedd, Llewelyn ap Iorwerth.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Os castelos moderaram as guerras

Chaumont-sur-Loire, França
Chaumont-sur-Loire, França
Luis Dufaur
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A cavalaria foi o grande entusiasmo da Idade Média.

O sentido da palavra cavalheiresco, que ela nos legou, traduz muito fielmente o conjunto de qualidades que suscitavam a sua admiração.

Basta percorrer a sua literatura, contemplar as obras de arte que dela nos restam, para ver por todo lado — nos romances, nos poemas, nos quadros, nas esculturas, nos manuscritos com iluminuras — surgir esse cavaleiro do qual a bela estátua da catedral de Bamberg representa um perfeito espécime.

Por outro lado, é suficiente ler os nossos cronistas para constatar que esse tipo de homem não existiu apenas nos romances, e que a encarnação do perfeito cavaleiro, realizada no trono de França na pessoa de um São Luís, teve nessa época uma multidão de êmulos.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Imponderáveis da “vida de castelo”

Relógio em Vaux-le-Vicomte
Luis Dufaur
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Prosseguimos com a narração de Jean d'Ormesson, filho do marquês, então criança, no castelo de Saint-Fargeau, Borgonha:

A vinda de M. Machavoine [o relojoeiro da cidadinha vizinha] me lançava em delícias inefáveis. Ele falava pouco.

Pequeno, curvado, fazia pouco barulho, executando sua função com gestos precisos e seguros, próprios a antiquários ou cirurgiões.

Ele se esgueirava de sala em sala, sempre vestido de negro, cumprimentava rapidamente, concentrava-se em um dos relógios como se fosse um ser vivo, acariciava-o rapidamente, desempoeirando-o com um pequeno espanador, ousava às vezes dar retoques no verniz ou colava alguma figura afrouxada, abria o paciente para lançar um olhar de águia em suas recônditas entranhas e se punha a dar corda com uma firmeza e um tacto excepcionais.

terça-feira, 24 de abril de 2018

A “vida de castelo” no dia-a-dia

Cheverny
Luis Dufaur
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A finalidade dos castelos mudou com o tempo.

O objetivo primeiro foi essencialmente militar: defender a população local da invasão de povos estrangeiros, bárbaros ou muçulmanos.

O triunfo do cristianismo trouxe a paz para a Europa, perturbada é verdade pela ofensiva protestante e, mais tarde, pelo ódio anti-aristocrático da Revolução Francesa

Mas, nos últimos séculos, o castelo passou a ser uma condensação do passado de uma família nobre.

Dentro de seus austeros mas já decorados muros, essas famílias conceberam um sonho.

Alguém poderia chamar esse sonho de ‘conto de fadas’. E, de fato, não há ‘conto de fadas’ sem castelo.

terça-feira, 10 de abril de 2018

O castelo eleva a vida quotidiana do povo

Quarto da rainha Luisa de Lorena
Luis Dufaur
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É próprio de a nobreza cultivar um estilo de vida que procura a distinção, o bom gosto e a sublimidade.

Este estilo é comunicado como que por osmose às populações que vivem em volta do nobre.

Nada a ver com a proliferação de peças artísticas num morto museu hodierno.

Lá vivia-se e, em alguns casos, vive-se numa ante-sala do Céu convidando a todos a aspirar às grandezas de nossa última e definitiva moradia.

O castelo de Chenonceaux é um exemplo destacado desta missão da nobreza e de seu estilo de vida.

Nas confusas origens das guerras feudais encontra-se um registro do século XI que nos fala da existência de um castelo originário, um simples manoir.