terça-feira, 14 de agosto de 2018

Conversas à luz de vela no castelo de Saint-Fargeau

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Ao cair da tarde, ao final do século XIX, os empregados em libré percorriam os quartos, os vestíbulos, a sala de bilhares, as salas de jantar, salões e boudoirs acendendo, aos poucos, como numa cena de contos de fadas, as lamparinas do tempo de meu pai.

Um teatro de sombras, que não conheci, animava-se na noite. Lá estava um ancião, mas não era meu avô, era o pai de meu avô.

Juntos ao bispo, o vigário, um general previamente tirado de Prévert, dois coronéis, visitantes hospedados desde cinco ou seis meses, nossos primos da Bretanha ou da Provence.

Não compareciam nem préfets de police, nem banqueiros.

E, cercados de lacaios em uniforme azul à la française conduzindo candelabros, todo esse bonito mundo esvaecido passava, em cortejo, à sala de refeições.

Nem tentemos imaginar o que se conversava à mesa. Nada de genial, imagino.



Mas a história tem segredos que os livros e o cinema terão dificuldade em nos comunicar.

Há incógnitas maiores do que o nome do Máscara de Ferro ou o enigma do Templo: são as palavras de meu avô, a atitude de minha avó, o perfume daquela época, o ar do tempo, toda a banalidade incomparável da vida de todos os dias.




Não é isso que quis dizer um dos personagens de Malraux ‒ Garine, em Les Conquérants ‒ quando perguntava se realmente valia a pena escrever livros que não fossem memórias.

É para recordar de modo mais perfeito as entonações de meu avô, seu odor sem igual, seus gestos imperceptíveis, sua figura altiva que escrevi estas recordações.





(Autor: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)




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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nuvem dourada nas ruínas do castelo de Conway

Conway ruinas envolvidas pela luz dourada do passado da Civilização Cristã
Conway ruinas envolvidas pela luz dourada
do passado da Civilização Cristã
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O Castelo de Conwy (em inglês: Conway Castle; Castell Conwy em galês) está localizado, na costa norte do País de Gales, Reino Unido.

Ele é considerado uma das obras primas da humanidade no gênero.

A construção demorou entre 1283 e 1289 com quinhentos operários trabalhando estavelmente.

Foi o castelo mais caro construído pela realeza até aquele momento, embora seu milionário custo em valores atualizados (162 milhões de libras) não chama a atenção se comparado às empreitadas hodiernas.

O fortaleza militar sobre o rio Conwy tinha a finalidade de garantir o domínio da casa real inglesa sobre o Principado de Gales que durante muito tempo foi independente e orgulhoso de sua alteridade étnica, cultural e dinástica.

Os galeses eram celtas e os ingleses anglo-saxões governados por uma casa real normanda vinda da França com Guilherme o Conquistador.

Esse legítima alteridade se preserva ainda hoje em muitas atividades culturais e até esportivas.

Porém sob o bafo harmonizador da Civilização Cristã, os dos reinos acabariam se fundindo de modo feliz sem se despersonalizarem.

A dinastia dos Tudor que reinou longamente na Inglaterra desde o fim da Guerra das Rosas, de 1485 a 1603, teve início no século XII, com Ednyfed Fychan de Tregarnedd (1179-1246), senescal do Príncipe de Gwynedd, Llewelyn ap Iorwerth.

Foi assim que descendentes de galeses assumiram a coroa do Reino Unido. Ela contou entre seus membros o famigerado Henrique VIII, herege e cismático que rompeu com Roma e fundou a igreja da Inglaterra mais conhecida como anglicana.

Essa dinastia se extinguiu, quiçá como punição divina. Mas até hoje o herdeiro da coroa inglesa é coroado Príncipe de Gales, usa esse título.

A foto aérea permite se fazer uma ideia da adequação do castelo à natureza. É claro que autopistas e modernices não existiam
A foto aérea permite se fazer uma ideia da adequação do castelo à natureza.
É claro que autopistas e modernices não existiam
O rei Eduardo I de Inglaterra ordenou sua construção durante a segunda campanha dele para dominar os altaneiros galeses. A imensa fortaleza fazia parte de todo um conjunto de fortificações, se destacando no Norte de Gales.

Conway assemelha-se a um castelo concêntrico, mas é uma fortificação linear construída num promontório rochoso de 15 metros de altura sobre o rio Conway, outrora rodeado pela água dos dois lados.

Foi construído de modo a prevenir uma minagem subterrânea e guardar a entrada para o Rio Conway.

Tudo foi concebido em função da guerra medieval.

A fortaleza está dividida num pátio exterior e num pátio interior separados por uma muralha de 4,6 metros de espessura e uma funda vala na rocha.

Cada pátio está protegido por quatro torres com mais de 21 metros de altura, 9,1 metros de diâmetro cada uma com vários andares.

As torres do pátio interior também possuem a defesa adicional de torretas.

O acesso ao castelo era feito, originalmente, por uma rampa com degraus através duma ponte levadiça, por uma portaria com grade e pela barbacã.

Então, quem entrava virava à esquerda, através da portaria principal, para o pátio interior. Difícil tarefa aguardava ao invasor.

Os principais aposentos habitacionais davam para o pátio interior e serviam para a guarnição e a torre prisão.

24º coronação-investidura de um príncipe de Gales. Efetivda no castelo de Caernarfon em 1969 pela Rainha Elizabeth na pessoa de seu filho primogênito Charles
24º coronação-investidura de um príncipe de Gales.
Efetivada no castelo de Caernarfon em 1969 pela Rainha Elizabeth
na pessoa de seu filho primogênito Charles
Uma muralha e portaria com uma enfiada de seteiras defendia esse pátio interior coração da resistência em caso de guerra em grande estilo.

Esta parte continha o aquecido Apartamento Real e o Grande Hall.

Na parte de trás do castelo existia outra barbacã guardando o lado do rio.

No século XIII, foi construída uma torre de vigia.

Eduardo I foi sitiado aqui durante a rebelião de Madog ap Llywelyn em 1295. O cerco durou vários meses e os mantimentos começaram a escassear.

No entanto, o castelo e a cidade não foram capturados. No século XIV, foram empreendidas alterações por ordem de Eduardo, o mítico Príncipe Negro.

Em 1403, forças galesas sempre renitentes ao governo inglês capturaram o castelo e a guarnição inglesa mas foram resgatados pelo rei Henrique IV de Inglaterra.

Com a ascensão dos Tudors, a situação mudou. Os galeses passaram de se sentir dominados a serem dominadores. E os ingleses não manifestaram tanto aversão.

Os conflitos mudariam de eixo. A oposição passou a ser entre católicos e protestantes nos dos reinados unidos e aos quais acabou sendo agregado o Reino da Escócia, também à força. E por obra dos Tudors protestantes que outrora tanto relutaram em se submeter aos ingleses católicos!

Hoje a bandeira do Reino Unido sintetiza os símbolos dos três reinados e a Rosa galesa dos Tudors é símbolo nacional.

Pátio exterior do castelo Conwy
Pátio exterior do castelo Conwy
As novas guerras foram muito mais ferozes que as medievais.

Tratava-se de guerras revolucionárias, promovidas por seitas protestantes igualitárias radicais que acabaram instalando a República como lógica decorrência de sua revolta contra a hierarquia eclesiástica católica que tem sua cabeça no Papa.

Nesse contexto, em 1646 o castelo de Conway foi destruído deliberadamente pelo exército republicano protestante conhecido como “parlamentarista” e deixado como uma concha vazia.

No início do século XVII, o, em tempos, grande Castelo Real estava degradado. Hoje é uma ruína.

Mas há ruínas que falam mais do que um arranha-céu de vidro brilhante.

O passado impregnado de nobreza e heroísmo – nos dois bandos em luta –, a sabedoria de uma era em que as obras mais ousadas se encaixavam felizmente – e até aperfeiçoavam – as características da natureza, envolve como uma nuvem dourada e transforma as ruínas numa feeria.

Compreende-se que a coroa inglesa tenha escolhido para o príncipe herdeiro o título de Príncipe de Gales.


Vídeo: Nuvem dourada nas ruínas do castelo de Conway







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quarta-feira, 27 de junho de 2018

As famílias dos castelos e o tufão destruidor

No castelo de Maintenon
Luis Dufaur
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Ainda das memórias do acadêmico Jean d'Ormesson:


Meu avô tinha seus padrões, suas fidelidades, seus rancores, suas convicções. Ele tinha o senso da honra junto ao culto do passado.

Ele era a intolerância feita homem. Inflexível, sem nuances, vivia num sistema no qual não faltava nenhuma parte.

Mas pura e simplesmente seu sistema não mordia mais o mundo. Mas ele pouco se importava.

Meu avô era discípulo de Bossuet. Era leitor assíduo de Barrès, o qual escreveu: “O que amo do passado? Sua tristeza, seu silêncio e, sobretudo sua fixidez”.

Maintenon, França
Gostava de história porque ela é imóvel, tendo já entrado numa eternidade inapelável.

Ao ouvir ‘La Marseillaise’ meu avô fingia não reconhecer aqueles acordes detestáveis. Foram necessários milhões de mortos, entre os quais vários de nossa família, para nos reconciliar com ela.

E meu avô vivera bastante para vê-la transformada numa manifestação tão reacionária, e talvez até mais conservadora do que os cantos de nossos chouans e de Monsieur de Charette.

Os homens e, sobretudo as mulheres de minha família liam muito pouco. Ouço em torno de mim lamentações a propósito da ignorância dos jovens.

Maintenon, Grande Gallerie
A estes, a escola, o cinema, a televisão e as viagens tinham trazido à família ‒ na desordem e na indiferença ‒ às vezes no esgotamento mental, um maior número de mentalidades, de paisagens, de verdades e de loucuras, de certezas e de dúvidas do que a chasse à courre, o protocolo da vida de château e as lições de nosso capelão.

Assim, perdíamos as evidências; os hábitos e a familiaridade nos levavam a não mais ver as verdades banais, aquele fundo imemorial dos modos de ser e de pensar.


(Autor: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)


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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Aspectos das famílias que deram vida aos castelos

Azay-le-Rideau refletido na água
Luis Dufaur
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Excertos das memórias do acadêmico francês Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas



“Meu avô era um velho distinto, vivendo de suas recordações. Ele permanecia apaixonadamente ligado à monarquia legítima.

“Flutuava entre nós, certamente um pouco acima de nós, um personagem silencioso e ausente : era o rei.

Nós não dávamos importância aos homens de teorias. Gostávamos dos pintores, dos arquitetos, dos homens de guerra e de Deus.

O castelo da família representava nossa própria mitologia. O castelo tinha um papel imenso em nossa vida de todos os dias.

“Talvez se pudesse dizer que ele era a encarnação do nome : ambos eram envolvidos na mesma atmosfera do sagrado. (...)

Maintenon: galeria dos antepassados
“E como tínhamos razão de desconfiar da técnica !

Nós a detestávamos, como detestávamos o progresso. As máquinas e os motores começavam a crepitar seus estalos e a percorrer nossas estradas…

“O telefone começava a tilintar, não em nossa casa, mas na casa de nossos primos. Um verdadeiro frenesi de mudanças tomou conta dos homens.

“E pouco a pouco tudo nos escapava das mãos… e todos repetiam em torno de mim que, sem Deus e sem o rei, sem esperança e sem fé, os homens tinham escolhido sua perdição.”


(Autor: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)



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