quarta-feira, 22 de maio de 2019

Mosteiro de Rodes: uma lição de granito

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






O mosteiro fortificado de São Pedro de Roda (Rodes) é um magnífico exemplar da arquitetura românica de fins do século X.

Encontra-se em Girona, no extremo da Espanha, a dois passos da fronteira francesa e do litoral do Mediterrâneo, conhecido como Costa Brava.

Os mosteiros fortificados da Idade Média são, para os homens contemporâneos, um símbolo do que deles reclama a época presente.

Construídos exclusivamente para o culto divino e a contemplação tranquila das verdades eternas, esses Mosteiros se circundavam de fortíssimas muralhas, para se porem ao abrigo dos inimigos da Cristandade.

Prevendo a guerra contribuíam para manter a paz, e defendendo com o braço dos cavalheiros cristãos a sua liberdade contra os inimigos do nome de Cristo.

Ai do Mosteiro medieval no qual o zelo pelo culto fizesse desleixar a defesa contra o adversário mouro ou pagão: em pouco tempo seria assediado e reduzido a ruínas.

Ai também do Mosteiro em que o zelo pela luta sufocasse o espírito de oração: desviado de seu verdadeiro espírito, provocaria a ira de Deus e atrairia sobre si os terríveis efeitos de sua cólera.

“Oração e luta”:

– oração para glorificar a Deus e vencer na luta;

–luta para conservar o direito de prestar culto a Deus e viver em oração!

Era esse o lema dos mosteiros fortificados da Idade Média.

E hoje, quantos países há que julgam poder conservar sua Fé sem travar em qualquer terreno a luta que a preservação da Fé exige!

Rezemos para que o Brasil não venha a ser colhido de surpresa pelos seus inimigos internos ou externos como um mosteiro sem muralhas defensivas...






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quarta-feira, 8 de maio de 2019

A abadia fortaleza do Monte Saint-Michel reluz ao perfazer mais de 1300 anos

Mais de treze séculos entre a feeria e a realidade
Mais de treze séculos entre a feeria e a realidade
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Em 1º de maio, o santuário, abadia e fortaleza do Monte Saint-Michel comemorou seus 1.311 anos.

O Monte Saint-Michel (em francês Mont Saint-Michel) é uma ilha penhasco na foz do Rio Couesnon, sobre a qual foi construído um prédio singular.

Trata-se de uma síntese de fortaleza, abadia beneditina (abadia do Monte Saint-Michel) e santuário, fronteira exata entre as atuais regiões da Normandia e da Bretanha, França, mas integrando a Normandia.

A inspiração proveio de uma visão miraculosa e visou homenagear o arcanjo São Miguel que teria pedido a construção naquele local muito perigoso pelas marés que provocam vertiginosas mudanças no nível do mar.

Em 708, Dom Aubert, bispo de Avranches, mandou construir o santuário sobre o monte Tombe. No século X os monges beneditinos instalaram-se na abadia e uma pequena vila cheia de charme foi-se formando aos seus pés. Até hoje é habitada e acolhe visitantes.

O claustro da abadia no topo do Mont Saint-Michel
O claustro da abadia no topo do Mont Saint-Michel
Seu antigo nome mencionado lá na lenda épica Chanson de Roland é “Monte Saint-Michel em perigo do mar” (Mons Sancti Michaeli in periculo mari).

O atual mosteiro foi fortificado no século XIII. Essa síntese de castelo, abadia e santuário tem alguns grandes correspondentes e centenas de outros menores.

Entre as maiores se destacam:

Aigues-Mortes, construída por São Luis IX, rei da Franca entre 1270-1276 como base de partida dos Cruzados rumo à Terra Santa;

Carcassonne, célebre por suas defesas visando impedir novas sublevações dos hereges cátaros; e

Avignon, sede do Papado contestatário na enorme confusão do Cisma de Ocidente, construída entre os anos 1309 a 1377.

A célebre estátua de São Miguel no topo da agulha.
A célebre estátua de São Miguel no topo da agulha.
Essas cidades fortificadas eram denominadas “bastides” e demarcavam a fronteira dos reinos ao final da Idade Média.

Foram construídas mais de 300 só na França, entre 1220 e 1350, e entre 1136 e 1270 aproximadamente em toda Europa.

Durante a Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra, os ingleses tentaram de toda maneira se apoderar da fortaleza.

Mas o Monte Saint-Michel foi inexpugnável, resistiu a todos os assaltos.

A destruição não podia vir do inimigo externo inglês.

Mas veio de dentro, do inimigo revolucionário, interno na França.

A Revolução Francesa ordenou a dissolução das ordens religiosas e até 1863 o Monte foi usado como vil prisão.

Quando o arquiteto Viollet-le-Duc – o mesmo que restaurou Notre Dame de Paris – iniciou a recuperação da fortaleza abadia, essa se achava na pior das ruínas.

A Revolução Francesa tinha-a transformado num cárcere do pior nível e no século XIX caia aos pedaços.

A igreja nunca fora refeita plenamente após devastador incêndio produzido por um raio.

A célebre agulha tinha desaparecido e mal se lembravam dela.

Mas, o arquiteto percebeu numa iluminura da coleção das Très Riches Heures du Duc de Berry uma belíssima agulha.

Vídeo: as marés no Mont Saint-Michel


Tal vez foi aprimorada pela imaginação maravilhada do copista medieval quem pintou um São Miguel Arcanjo revoando em torno dela com a espada desembainhada.

Viollet-le-Duc fez questão de transformar esse esplêndido sonho em realidade. E o realizou.

O famoso escultor Emmanuel Fremiet (1824-1910) a concretizou em cobre folhado a ouro.

Hoje a arquitetura prodigiosa do monte Saint-Michel é coroada por São Miguel no topo da agulha da igreja abacial que culmina a 170 metros de altura.

O monte se ligava ao continente através de um istmo natural que era coberto regularmente pelas marés altas, velozes e muito perigosas.

Vídeo: o maravilhoso mistério do Mont Saint-Michel


O acesso por barcas, cavalos ou charretes de imensas rodas era frequente.

Outra iniciativa para tirar o encanto da sede do príncipe da milícia celestial consistiu na criação de pastagens drenando as áreas inundáveis pelas altas marés e assoreando a baía.

Em 1879 o istmo tinha se tornado uma passagem seca perene.

Em 2006 o governo francês percebendo a monstruosidade feita ordenou remover as medidas anteriores e devolveu a insularidade à magnífica abadia.

Todo ano, mais de três milhões de pessoas vão visitar essa joia medieval.

Muitos vão em espírito de peregrinação religiosa marchando sobre as areias movediças imortalizadas por grandes literatos, inclusive ateus como Vitor Hugo.

Quando os prédios modernos atingem um certo número de anos ficam abandonados, sujos e decrépitos e só se pensa em demoli-los para fazer qualquer outra coisa em seu lugar.

Mas os prédios medievais quanto mais antigos mais inspiram veneração e desejo de resguardá-los, ainda que custe muito dinheiro.

É uma lição que o recente incêndio da catedral de Notre Dame de Paris veio nos lembrar.

É que eles são portadores de uma coisa que não tem prezo: a bênção e a unção sobrenatural da Civilização Cristã.

Acrescida, no caso do monte-abadia, da inegável ação de presença do general em chefe das milícias celestes, o Arcanjo São Miguel.



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quarta-feira, 10 de abril de 2019

As muralhas de Ávila:
Hieraticidade, firmeza e vigor


Luis Dufaur
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As muralhas de Ávila, na Espanha, ostentam uma sinuosidade serpentiforme.

Delas não podemos dizer que apresentam um movimento sutil e com certo charme.

As coisas que se esgueiram, normalmente têm charme.

Essas muralhas, entretanto, não manifestam charme, exibem sobretudo solidez.

Hieráticas, firmes, vigorosas como se fossem muralhas e torres no alto de um abismo.

Qual a razão disto?

É claro que as numerosas pontas das ameias concorrem para causar essa impressão, bem como as várias torres salientes e firmes existentes na muralha.

Mas não é apenas isso.

Há um imponderável, indefinível, que é o mesmo imponderável da segurança que revela o guerreiro, o qual é hierático mesmo quando assume atitudes que não são hieráticas.

Tão seguro da sua hieraticidade, que qualquer movimento seu exprime uma atitude inteiramente segura da própria dignidade.

É digno de nota não haver janelas nessas muralhas.

O que manifesta indiferença em relação ao lado de fora — uma característica nos monumentos espanhóis —, como quem diz:

"Eu sou e me proclamei para a eternidade. Vocês outros sabem o que sou, e o reconheçam; caso contrário, serão condenados.

"Se eu puder, coloco-os no cárcere; se não puder, Deus o fará, mas as nossas contas estão feitas para toda eternidade!"

Eis o que essas soberbas muralhas deixam subentendido.

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 7.2.1974. Sem revisão do autor.


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quarta-feira, 27 de março de 2019

Torre de Belém: interior gótico austero e militar

Nau de pedra do tempo que o brasão português era respeitado
e temido em todos os oceanos
Luis Dufaur
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A Torre de Belém é um dos monumentos mais expressivos da alma portuguesa. 

Localiza-se na margem direita do rio Tejo, onde existiu outrora a praia de Belém.

Inicialmente cercada pelas águas em todo o seu perímetro, progressivamente foi envolvida pela praia, até se incorporar hoje à terra firme.

O monumento é todo rodeado por decorações do Brasão de armas de Portugal, incluindo inscrições de cruzes da Ordem de Cristo.

Tais características remetem à arquitetura típica de uma época em que Portugal era uma potência global.

Ela foi eleita como uma das Sete maravilhas de Portugal em 7 de julho de 2007.

Originalmente sob a invocação de São Vicente de Zaragoza, padroeiro da cidade de Lisboa, recebeu no século XVI o nome de Baluarte de São Vicente a par de Belém e por Baluarte do Restelo.

A Torre integrava o plano defensivo da barra do rio Tejo projetado à época de João II de Portugal (1481-95), integrado na margem direita do rio pelo Baluarte de Cascais e, na esquerda, pelo Baluarte da Caparica.

Fortaleza para controlar o Tejo
O cronista Garcia de Resende foi o autor do seu risco inicial, tendo registado:

“E assim mandou fazer então a (...) torre e baluarte de Caparica, defronte de Belém, em que estava muita e grande artilharia; e tinha ordenado de fazer uma forte fortaleza onde ora está a formosa torre de Belém, que el-Rei D. Manuel, que santa glória haja, mandou fazer; para que a fortaleza de uma parte e a torre da outra tolhessem a entrada do rio.

“A qual fortaleza eu por seu mandado debuxei, e com ele ordenei a sua vontade; e tinha já dada a capitania dela [a] Álvaro da Cunha, seu estribeiro-mor, e pessoa de que muito confiava; e porque el-Rei João faleceu, não houve tempo para se fazer” (RESENDE, Garcia de. Crónica de D. João II, 1545.).

Teto da capela
A estrutura foi iniciada em 1514, sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), tendo como arquiteto Francisco de Arruda.

Localizava-se sobre um afloramento rochoso nas águas do rio, e destinava-se a substituir a antiga nau artilhada, ancorada naquele trecho, de onde partiam as frotas para as Índias.

As suas obras ficaram a cargo de Diogo Boitaca, que, à época, também dirigia as obras do vizinho Mosteiro dos Jerónimos.

Concluída em 1520, foi seu primeiro alcaide Gaspar de Paiva, nomeado para a função no ano seguinte.

Com a evolução dos meios de ataque e defesa, a estrutura foi perdendo a sua função defensiva original.

Ao longo dos séculos foi utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol.

Os seus paióis foram utilizados como masmorras para presos políticos durante o reinado de Filipe II de Espanha (1580-1598), e, mais tarde, por João IV de Portugal (1640-1656).

O Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, D. Sebastião de Matos de Noronha (1586-1641), por coligação à Espanha e fazendo frente a D. João IV, foi preso e mandado recluso para a Torre de Belém.

Canhoneiras para tiro rasante de artilharia
Sofreu várias reformas ao longo dos séculos, principalmente a do século XVIII que privilegiou as ameias, o varandim do baluarte, o nicho da Virgem, voltado para o rio, e o pequeno claustro.

A decoração exterior, adornada com cordas e nós esculpidas em pedra, galerias abertas, torres de vigia no estilo mourisco e ameias em forma de escudos decoradas com esferas armilares, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas, como um rinoceronte, alusivos às navegações.

O interior gótico, por baixo do terraço, que serviu como armaria e prisão, é muito austero.

A sua estrutura compõe-se de dois elementos principais: a torre e o baluarte.

Nossa Senhora do Bom Sucesso
Nos ângulos do terraço da torre e do baluarte, sobressaem guaritas cilíndricas coroadas por cúpulas de gomos, ricamente decorada em cantaria de pedra.

A torre quadrangular, de tradição medieval, eleva-se em cinco pavimentos acima do baluarte, a saber:

Primeiro pavimento - Sala do Governador.

Segundo pavimento - Sala dos Reis, com teto elíptico e fogão ornamentado com meias-esferas.

Terceiro pavimento - Sala de Audiências

Quarto pavimento - Capela

Quinto pavimento - Terraço da torre

A nave do baluarte poligonal, ventilada por um pequeno pátio fechado, abre 16 canhoneiras para tiro rasante de artilharia.

O terrapleno, guarnecido por ameias, constitui uma segunda linha de fogo, nele se localizando o santuário de Nossa Senhora do Bom Sucesso com o Menino, também conhecida como a Virgem do Restelo por “Virgem das Uvas”.




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