quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

As famílias dos castelos e o tufão destruidor

No castelo de Maintenon
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



Ainda das memórias do acadêmico Jean d'Ormesson:


Meu avô tinha seus padrões, suas fidelidades, seus rancores, suas convicções. Ele tinha o senso da honra junto ao culto do passado.

Ele era a intolerância feita homem. Inflexível, sem nuances, vivia num sistema no qual não faltava nenhuma parte.

Mas pura e simplesmente seu sistema não mordia mais o mundo. Mas ele pouco se importava.

Meu avô era discípulo de Bossuet. Era leitor assíduo de Barrès, o qual escreveu: “O que amo do passado? Sua tristeza, seu silêncio e, sobretudo sua fixidez”.

A
Maintenon, França
Gostava de história porque ela é imóvel, tendo já entrado numa eternidade inapelável.

Ao ouvir ‘La Marseillaise’ meu avô fingia não reconhecer aqueles acordes detestáveis. Foram necessários milhões de mortos, entre os quais vários de nossa família, para nos reconciliar com ela.

E meu avô vivera bastante para vê-la transformada numa manifestação tão reacionária, e talvez até mais conservadora do que os cantos de nossos chouans e de Monsieur de Charette.

Os homens e, sobretudo as mulheres de minha família liam muito pouco. Ouço em torno de mim lamentações a propósito da ignorância dos jovens.

Maintenon, Grande Gallerie
A estes, a escola, o cinema, a televisão e as viagens tinham trazido à família ‒ na desordem e na indiferença ‒ às vezes no esgotamento mental, um maior número de mentalidades, de paisagens, de verdades e de loucuras, de certezas e de dúvidas do que a chasse à courre, o protocolo da vida de château e as lições de nosso capelão.

Assim, perdíamos as evidências; os hábitos e a familiaridade nos levavam a não mais ver as verdades banais, aquele fundo imemorial dos modos de ser e de pensar.


(Autor: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Aspectos das famílias que deram vida aos castelos

Azay-le-Rideau refletido na água
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Excertos das memórias do acadêmico francês Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas



“Meu avô era um velho distinto, vivendo de suas recordações. Ele permanecia apaixonadamente ligado à monarquia legítima.

“Flutuava entre nós, certamente um pouco acima de nós, um personagem silencioso e ausente : era o rei.

Nós não dávamos importância aos homens de teorias. Gostávamos dos pintores, dos arquitetos, dos homens de guerra e de Deus.

O castelo da família representava nossa própria mitologia. O castelo tinha um papel imenso em nossa vida de todos os dias.

“Talvez se pudesse dizer que ele era a encarnação do nome : ambos eram envolvidos na mesma atmosfera do sagrado. (...)

Maintenon: galeria dos antepassados
“E como tínhamos razão de desconfiar da técnica !

Nós a detestávamos, como detestávamos o progresso. As máquinas e os motores começavam a crepitar seus estalos e a percorrer nossas estradas…

“O telefone começava a tilintar, não em nossa casa, mas na casa de nossos primos. Um verdadeiro frenesi de mudanças tomou conta dos homens.

“E pouco a pouco tudo nos escapava das mãos… e todos repetiam em torno de mim que, sem Deus e sem o rei, sem esperança e sem fé, os homens tinham escolhido sua perdição.”


(Autor: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)


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