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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SAUMUR: o banquete que passou para a História

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Num famoso livro de “Orações do Duque de Berry” é representado o castelo francês de Saumur, sobre o rio Loire.

Infelizmente ele foi arrasado nas guerras de religião movidas pelos protestantes calvinistas.

Acabou em ruínas esquecido no período que medeia o fim da Idade Média e passando pela Revolução Francesa chega até nossos dias.

Em décadas recentes, Saumur foi objeto de uma restauração, mas que até agora não conseguiu atingir o nível que teve durante a Idade Média.

É um dos mais belos da Idade Média e um daqueles em que a alma da Idade Média melhor se exprime e melhor se representa.

Saumur foi símbolo de uma época, e de um estilo de viver que associava em feliz consórcio nobres e camponeses, ricos e pobres, todos eles profundamente católicos.

Nele aconteceu um famoso festim oferecido por um rei santo: São Luís IX.

O banquete de Saumur


Em 1237, quando São Luís era um rei muito novo investiu seu irmão Afonso como conde de Poitiers, um riquíssimo, brilhante e populoso feudo.

Lá germinava, infelizmente, um ninho de revoltas da nobreza local!

Atiçados pelo rei Henrique III, da Inglaterra, que sonhava ser rei da França, os senhores feudais não cessavam de fazer intrigas.

Já germinava a discórdia que desfecharia na guerra dos Cem Anos.

Os intrigantes haviam motejado o jovem monarca como “rei dos monges”, como “devoto” incapaz de defender sua herança.

Esta iluminura posterior nos dá uma certa ideia do banquete real
Esta iluminura posterior nos dá uma certa ideia do banquete real
São Luís IX quis conferir à investidura do irmão um caráter oficial e solene. As festas incluíram um famoso banquete em Saumur e foram descritas por Joinville, autor de uma inigualável biografia do rei santo e espécie de primeiro-ministro do conde de Champagne, um dos mais poderosos, ricos e autônomos senhores da França.

— “O rei reuniu uma grande Corte em Anjou. Eu estava lá e dou testemunho que foi a melhor ordenada que já vi”.

E após descrever os grandes homens do reino sentados à mesa em suas brilhantes roupagens, prossegue:

“Atrás deles havia bem aproximadamente 30 cavaleiros vestidos com túnicas de seda que os protegiam. E, por trás dos cavaleiros, um grande número de lacaios com as armas do conde de Poitiers bordadas sobre tafetá.

“O rei estava vestido com uma túnica de seda bordada de cor azul, tendo por cima um manto de seda vermelha bordada e forrada de arminho, com um chapéu de algodão sobre a cabeça, o qual, aliás, não lhe ficava muito mal!!!, porque ele era jovem”.

Assim se apresentou o terceiro franciscano que ia descalço nas procissões, pois assim o exigiam o bem da ordem política e social, a harmonia da ordem cristã, a vocação e o cargo que Deus lhe deu.

Mas, por detrás da deslumbrante festa crepitava o drama.

Com as cerimônias, São Luís quis patentear seu poder supremo sobre o feudo. Mas os insubordinados senhores locais interpretaram-na como provocação e tiraram pretexto para revolta.

Na vitória de Taillebourg, São Luís se afirmou como rei inconteste da França
Com a vitória de Taillebourg, São Luís se afirmou como rei inconteste da França.
Eugène Delacroix, Museu de Versailles
O chefe dos dissidentes era Hugues de Lusignan, conde de la Marche, que a exemplo de Iscariote à mesa com Jesus na Última Ceia, estava sentado à mesa do rei. E seu suserano era o rei da Inglaterra, Henrique III.

A murmuração correu como rastilho de pólvora: São Luís queria usurpar os direitos do rei inglês. A prova? O festim e a nomeação de seu irmão como conde de Poitou!

Louco de raiva, Hugues de Lusignan abandonou Saumur às pressas, prometeu repudiar a vassalagem ao rei da França e montou uma liga militar contra a Coroa.

O rei da Inglaterra garantiu-lhe tropas que viriam por mar. Os amotinados aguardavam reforços da Espanha e o ataque do imperador alemão, que surpreenderia o rei francês pelas costas.

São Luís não se descuidou: estava perfeitamente informado dos planos, tratativas e reuniões secretas dos adversários. E antes de as tropas inglesas desembarcarem, empreendeu a ofensiva!

Os castelos de Hugues de Lusignan capitularam um após outro. E quando o rei inglês pôs o pé em terra com seu exército, era tarde demais. Ele, porém, ousou enfrentar o “rei devoto”.

O choque se deu em Taillebourg, em 1242, batalha completada em Saintes. A carga de cavalaria conduzida pelo santo sobre um soberbo cavalo branco decidiu a batalha e mudou os rumos da Europa feudal.

Saumur se espelha majestosamente nas águas do rio Loire.
Saumur se espelha majestosamente
nas águas do rio Loire.
“Luís — narra o historiador Henri Pourrat (Les Saints de France, Editions Contemporaines Boivin, 1951.) —, à testa de somente oito homens de armas, lançou-se sobre a ponte de Chernete e sustentou o embate de mil ingleses, até o momento em que sua gente chegou, entusiasmada com o feito do rei”.

Séculos depois, o pintor Delacroix imortalizou a façanha. Pouco faltou para o rei inglês cair prisioneiro. A partir de Taillebourg, a Europa ficou sabendo que esse rei dos monges manejava a espada com implacável maestria.

Esplêndido vencedor, São Luís manifestou magnanimidade, inteligência, tato político e visão histórica que impressionaram a Europa feudal.

Seus conselheiros quiseram convencê-lo a despojar os vencidos. O santo reafirmou que isso estava no seu direito, mas não pediu senão aquilo que julgou politicamente inteligente.

Ao rei inglês derrotado cedeu as regiões francesas de Limousin, Périgord, Agenais, Saintonge e parte de Quercy, com a condição de tornar-se seu vassalo mediante o sagrado juramento de vassalagem. Luís IX quis firmar os laços de amor entre os filhos de ambas as coroas.

O rei da Inglaterra passou a lhe prestar as homenagens de um subordinado. Assim fazendo, a Guerra dos Cem Anos ficou adiada de um século.

Ao conde Hugues de Lusignan, chefe dos revoltosos, o rei perdoou um terço dos bens. Retirando-se para suas terras, morreu de desgosto.

Era num contexto de palácio como o de Saumur que giravam os grandes assuntos dos países.

Nos castelos evoluíam almas boas e más. Mas prevaleciam as boas, como São Luís, e eles imprimiam o estilo dos castelos.

Hoje, os personagens públicos são outros e os locais de governo são bem diversos. Sem dúvida neles há maus. Há bons?

Uma coisa é certa os prédios de governo que eles constroem muitas vezes são chatos ou medonhos e, se tem histórias para nos contar, podem ser banais ou sórdidas.


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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Altivez de CHEVERNY

Cheverny, fachada
Cheverny: castelo altivo, discreto, gracioso, cheio de história familiar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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A altivez do castelo de Cheverny está no que ele tem de mais gracioso.

Ele como que sai de dentro de um mundo de delícias e de mistérios.

É como quem diz:  

“Forte eu sou, mas sobretudo eu me prezo de ser inteligente. Em última análise, sou completo. Sou dotado de inteligência e de força. Sou equilibrado”.

O Castelo de Cheverny fica no vale do Loire, na região de Sologne, comuna de Cheverny.

A matilha não avanca sobre o almoco enquanto não receber ordem.
Depois devora tudo num abrir e fechar de olhos
Atualmente também é célebre pela educadíssima – se assim se pode dizer – matilha de cães que participam regularmente de elegantes caçadas de veados feitas à cavalo.

As terras do castelo foram compradas por Henri Hurault, Conde de Cheverny, Tenente General dos Exércitos do Rei de França e Tesoureiro Militar do Rei Luís XI (1423 – 1483), do qual o proprietário atual, o Marquês de Vibraye, é descendente.

Entretanto, a propriedade do castelo passou por vicissitudes históricas, como todo castelo que se preza.

Cheverny, armadura
Interior do castelo
A Coroa se apropriou dele após denúncias de fraude, e o Rei Henrique II o doou à sua infame amante Diane de Poitiers.

Essa venal mulher preferia o castelo de Chenonceaux e vendeu a propriedade ao filho do primeiro proprietário, Philippe Hurault, que construiu o atual palácio entre 1624 e 1630.

A decoração foi acabada pela filha de Henri Hurault e de Marguerite, a Marquesa de Montglas, cerca de 1650.

Durante os cento e cinquenta anos seguintes, o palácio mudou muitas vezes de proprietário, mas em 1824, voltaria a ser comprado pela família Hurault.

Essa nobre família continua a habitar em Cheverny, tendo-o tornado num incontornável château do Loire.

Ele é famoso quer pelos seus magníficos interiores, quer pela sua coleção de objetos de arte e de tapeçarias.

O castelo é talvez um pouco discreto demais, mas foi realçado pela perspectiva.

Fica num grande parque, envolto por um simples, mas esplêndido tapete de esmeraldas para lhe servir de apresentação.

Ao longe, arvoredos formando a moldura.

A clareza e a lógica cercadas pelos imponderáveis: mais uma forma de equilíbrio.

Não é verdade que um dos prazeres da vida, que tornam a existência humana digna de ser cristãmente vivida, é analisar as coisas dessa forma?

Mas analisar com os olhos postos no Céu.

Porque esses são valores de espírito, e a civilização que os gerou foi cristã.

São assim, porque por eles foi derramado o precíossimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.



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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 2

Sala dos Estados é a mais antiga sala gótica da França
Sala dos Estados é a mais antiga sala gótica da França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 1



A Sala dos Estados é a mais antiga sala gótica da França, destinada a uma finalidade temporal.

Foi Sala de Justiça dos condes de Blois, e depois albergou os Estados Gerais – espécie de Assembleia nacional extraordinária – em 1576 e 1588.

Era costume dos senhores feudais administrar justiça.

São Luis fazia-o embaixo de uma árvore famosa do bosque de Vincennes, então na periferia de Paris.

E se pudéssemos assistir em espírito a essa cena?

Capela do castelo de Blois
Capela do castelo de Blois
Posteriormente a nobreza foi transferindo o poder de julgar a uma categoria especial: a dos juízes.

E assim forma se especificando os poderes fundamentais da sociedade na Idade Média.

A torre circular de Foix é um dos vestígios da fortaleza medieval. Ela defendia o sul oeste do castelo.

No século XIII o castelo passou para a família de Châtillon, originária da Borgonha, que depois o passou para a família de Orléans.

Em 1429, antes de partir para liberar Orléans, Santa Joana de Arco se fez abençoar na capela do castelo pelo arcebispo de Reims, D. Renault de Chartres.

Quem lembrar desse fato ao visitar a capela tirará um suco especial da visita.

Vista aérea do castelo de Blois
Vista aérea do castelo de Blois
Em 1462, nasceu o futuro rei Luis XII e em 1498 o castelo medieval se tornou residência real. Luis XII o escolheu como sua residência principal. E assim ficou sendo durante o reinado da dinastia de Valois.

Louis XII reconstruiu-o em estilo gótico tardio, acrescentando a capela de Saint-Calais. Blois testemunhou grandes fatos nesse período: o casamento de César Borgia em 1499 e de Guilherme IX, marquês de Montferrat em 1508. Por ele passou também o famoso mais cínico Nicolau Machiavelo.

Sob Francisco I o castelo atingiu um auge de enriquecimento. Francisco I, porém foi um rei pomposo mais volúvel como o espírito da Renascença que abandonava o espírito medieval.

Porém, a decadência de costumes do Renascimento produziu funestos frutos.

Em 18 de outubro 1534, no castelo foram distribuídos panfletos protestantes contra a Missa católica, inclusive na porta do quarto do rei.

O fato marca o início das violências que culminariam nas guerras de religião.

Assassinato do duque de Guisa. Paul Delaroche (1797-1856), Musée Condé, Chantilly
Um quarto fala especialmente desse sombrio período histórico. É o próprio quarto do rei.

Nele, Enrique II – rei tudo penetrado das molezas e vilanias do espírito renascentista – fez assassinar ao duque de Guisa chefe do partido católico. No dia seguinte fez matar ao cardeal de Lorena, irmão do duque.

Conta-se que Enrique II cinicamente, contemplando o cadáver do duque de Guise que era muito alto, teria dito:

«Mon Dieu, qu'il est grand ! Il paraît même plus grand mort que vivant !» “Meu Deus, como ele é grande! Ele parece até mais grande morto do que vivo!”.

O castelo ficou como tocado pelo crime. Após as guerras de religião, Luis XIV se desinteressou por ele e Luis XVI pensou em destruí-lo logo antes da Revolução Francesa.

Mas, a destruição não chegou a se consumar e o castelo ficou quartel do Royal Comtois, um regimento de cavalaria, e após a Revolucao foi decaindo.





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quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 1

Pavilhão renacentista-medieval
Pavilhão renacentista-medieval
Luis Dufaur
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Os castelos condensam a história de sua região ou de seu país.

Os grandes fatos que neles se deram ficam registrados como num livro vivo aberto a todos que sabem lê-lo.

Eles mantêm os ambientes onde se passaram fatos memoráveis, bons ou maus, e como que estão habitados pela presença dos personagens que neles participaram.

É o caso do castelo real de Blois no vale do rio Loire, na França.

Estátua do rei Luis XII, na fachada do pátio interior
Durante o reinado de Carlos o Calvo, em 854, foi edificado o Blisum castrum — “o castelo de Blois” sobre a ribanceira do rio Loire, rio que divide a França pelo meio.

O motivo foi forte: a região era atacada pelos Vikings que entravam rio sdentro tudo devastando.

Quem hoje passa ao pé da fachada de pedra que dá para o rio pode imaginar esses furiosos vikings com seus cascos com chifres tentado escalá-la em luta com os defensores

A fortaleza ficava no cerne do feudo dos condes de Blois, poderosos senhores feudais dos séculos X e XI cujas terras iam desde Chartres até a Champagne.

O conde de Blois comandava a I Cruzada durante o cerco de Antioquia.

A situação da empresa militar, num certo momento, ficou muito difícil para os cruzados, eles estavam quase perdidos e o conde de Blois voltou para a França.

De retorno ao castelo, sua mulher Adelaide de Blois o expulsou de casa, e mandou-o voltar para a Cruzada.

Ele retornou para a Cruzada e morreu heroicamente na batalha de Ramla.

Dormitório da Rainha
Dormitório da Rainha
Ela, então, foi para convento de Massigny, da linha feminina de Cluny, e ficou monja beneditina e abadessa.

Era filha de Guilherme o Conquistador, que conquistou a Inglaterra. Ela era uma mulher virtuosíssima e incentivou muito o marido para ir à Primeira Cruzada.

Seria interessante passear pelas partes medievais imaginando esta singular “briga de casal”.

A primeira fortaleza, dita a “grande torre” foi erigida por Thibaud le Tricheur no século X.

Uma gravura de por volta de 1080, mostra a Thibaud III julgando “na fortaleza de Blois, no pátio posterior do castelo perto da torre”.

Continua no próximo post: Blois: castelo povoado de personagens e eventos históricos — 2



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