Mostrando postagens com marcador Montreuil-Bellay. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Montreuil-Bellay. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de março de 2026

Origem e morte do castelo depende da moral e da religião da família nobre

Montreuil-Bellay
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






O castelo está intrinsecamente ligado a uma família. A família é a alma do castelo.

Tudo nele, grande o pequeno, carrancudo ou charmoso, é a manifestação do espírito de uma linhagem.

Como tantos deles ficaram abandonados e até viraram ruínas?

Quanto mais se procura, encontra-se quase infalívelmente o mesmo fato:a família que o criou e/ou habitou, previamente decaiu. As causas alegadas da decadência podem ser diversas: guerras, desastres naturais...

Porém, sempre se encontra uma grande e decisiva causa: a crise moral e religiosa da família nobre que foi a alma do castelo.

O acadêmico Jean d'Ormesson, de nobre origem, escreveu sobre a escalada dos prazeres, a infidelidade conjugal e a morte da vida em muitos castelos:

As concubinas tiveram na história de minha família e de seu enfraquecimento um papel comparável ao de Robespierre, de Darwin, de Karl Marx, das quintas-feiras negras de Wall Street, de Freud, de Rimbaud e de Picasso: elas abalaram um pouco mais algumas das colunas de nosso velho templo apodrecido.

Challain
Nunca meu avô disse-me uma palavra, nem a outra pessoa da família, creio eu, a respeito do que sucedia conosco. Eu me perguntava se ele compreendia o que se passava. Não estou certo. Mas ele sentia que a ordem tinha sofrido danos. E esses danos envenenaram os últimos dias de sua vida.

A liberdade dos costumes tinha tomado, um pouco misteriosamente, ares de destruição. A libertinagem passava lentamente para o lado da morte e do desespero.

Havia algo de tresloucado e de crepuscular em nossos prazeres ilícitos. Não era difícil perceber, sob a alegria e as trepidações, o gosto da fuga, da vertigem, a fascinação pelos torvelinhos, uma sede ardente de delírios.

Não era mais à volúpia que nos abandonávamos: era a todos os abismos do aniquilamento.

Nada se assemelhava tanto ao suicídio como as loucuras de pessoas enfadadas com o mundo e entregues aos prazeres proibidos, irremediavelmente ligados a uma situação econômica e social e à decadência política e moral. Vivíamos irritados numa civilização cansada. Cansada dela mesma, cansada de nós.

Mayenne
Enquanto nós nos enchafurdávamos na fruição duvidosa de todas as liberdades, outros se punham a dançar nas ruas, a passear de braços dados sob o sol de verão, a acampar nas praias e florestas, a descobrir o mundo ingênuo de cujo charme desgastado nós fugíamos: era o povo.

No horizonte já se anunciava o Front Populaire. E nós usávamos nossas últimas forças a renegar todas as regras que, tendo feito nossa grandeza, agora nos asfixiavam.

Víamos de modo obscuro que uma nova moral ia surgir e que não mais seríamos a classe dominante. Por isso nos lançávamos em nossa própria negação.

E meu avô, sozinho, abatido pelos anos e mais ainda pelo futuro, permanecia de pé, imóvel como uma estátua do Comandante despojado de todo prestígio, como a pedra testemunhante de uma moral ultrapassada.

(Fonte: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)
Hoje, certas famílias nobres se perguntam se não é para enterrar esse liberalismo moral, assassino da família.



GLÓRIA CRUZADAS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Montreuil-Bellay: equilíbrio de belicosidade, beleza e … penitência!

Posto chave para um belicoso, pecador e penitente senhor feudal
Posto chave para um belicoso, pecador e penitente senhor feudal
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








O castelo de Montreuil-Bellay é uma das mais vastas construções medievais hoje subsistentes, embora muito reformado durante os séculos.

Ele se espraia com ufania no coração da cidade forte – quer dizer rodeada de muralhas – que leva seu mesmo nome.

Na origem do castelo encontramos um homem muito característico dos primeiros séculos medievais: Foulques Nerra (965/970-1040), duque d’Anjou.

Ele foi um personagem de temperamento violento e de uma energia pouco comum. Nele ainda fervia o sangue dos bárbaros não há muito batizados.

Passou para a história como “um dos batalhadores mais agitados da Idade Média”, segundo o historiador Achille Luchaire.

Fazendo jus ao próximo sangue bárbaro, Foulques foi cruel. Mas aqui encontramos uma diferença com o bandido moderno.

Foulques tinha também um coração amante e um enlevo de criança pela pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. E isso fez a diferença.

Já foi escrito que “seus remorsos estavam à altura de seus crimes”.

A sacralidade penetra a intimidade, trazendo a paz de Deus ao lar
A sacralidade penetra a intimidade, trazendo a paz de Deus ao lar
Enquanto o bandido moderno – e muitas vezes o não-bandido moderno – ostentam uma frieza assustadora, inumana até, diante do crime ostensivo ou dissimulado, Foulques chorava sincera e profundamente seus pecados.

Entre castelos para suas guerras e abadias para purgar suas ofensas a Deus, ele construiu por volta de cem prédios históricos, entre os quais o castelo de Montreuil-Bellay.

Talvez Foulques seja o personagem a quem o vale do Loire mais deve castelos e abadias.

Mais. Peregrinou três vezes à Terra Santa (em 1002, 1006 e 1038), em reparação pelas suas más ações.

Em sua última romaria a Jerusalém, dirigiu-se com o dorso nu até o Santo Sepulcro, enquanto dois de seus servidores, por ordem sua, flagelavam-no e bradavam: “Senhor, recebei o péssimo Foulques, conde d’Anjou, que Te traiu e renegou. Olha para sua alma arrependida, ó Senhor Jesus!”

Após inúmeras guerras, ereção de castelos e abadias, Foulques se extinguiu na paz de Deus na cidade de Metz, na França, voltando da romaria penitencial da Terra Santa que acabamos de mencionar.

Um dos raros castelos medievais que conservaram todas suas torres
Um dos raros castelos medievais que conservaram todas suas torres
Foi ele quem ordenou construir a primeira cidadela do que seria o castelo de Montreuil-Bellay sobre um outeiro romano, cuja defesa confiou a seu vassalo Giraud Bellay, de onde lhe vem o nome.

A família Bellay foi de uma fidelidade exemplar aos reis da França. Por isso, os reis Felipe-Augusto e Luis VIII, avô e pai respectivamente de São Luis IX, instalaram de passagem sua Corte no castelo, nos anos de 1208 e 1244.

Durante a guerra dos Cem Anos o castelo foi herdado sucessivamente pelas casas de Melun, Tancarville e Harcourt, esta descendente de antigos vikings.

Nesse período belicoso o castelo foi aumentado com diversas torres, além de 650 metros de muralhas e 13 torres defensivas, que vieram somar-se às enormes torres redondas e ponte levadiça.

No século XV, sua expansão – carregada de arte, mas de um desmedido desejo do gozo da vida decorrente da Renascença – promoveu uma reforma da poderosa fortaleza.

Muitas janelas foram abertas nos muros, e novas salas, salões de diversos tipos, quartos, salas de jantar e uma escadaria monumental foram introduzidos.

Em muitos castelos, nobres famílias cultuam um passado cheio de cristianismo
Em muitos castelos, nobres famílias cultuam o passado cristão
Além do mais, construiu-se a igreja da Collégiale Notre-Dame, dotada de instalações especiais para os cônegos que ali iam rezar o Oficio.

Todo esse passado heroico e essencialmente católico fizeram de Montreuil-Bellay um símbolo da fidelidade a Deus, ao rei e ao catolicismo.

Esse aspecto foi sublinhado por um fato que encolerizou os inimigos da Igreja e do trono. Durante a Revolução Francesa, o proprietário do castelo, Jean-Bretagne de La Trémoille, permaneceu fiel ao rei legítimo Luiz XVI.

Enfurecidos, os líderes revolucionários confiscaram o castelo e o transformaram numa prisão para mulheres monarquistas.

Após a tempestade revolucionária, por via de casamento, o castelo passou a ser propriedade da nobre família de Grandmaison, que até hoje fornece prefeitos para a cidade e algum senador para a França.

É preciso uma visão aérea para abarcar a enorme dimensão da fortaleza.

Mas não é só dimensão.

Montreuil-Bellay é um universo original que nos arranca da banalidade quotidiana. A surpreendente proliferação de torres – esguias e delicadas umas, massivas e atarracadas outras – desconcerta o visitante moderno, acostumado a prédios retangulares sem nenhum destaque.

E, desde o topo das torres, algumas janelas, talvez acrescentadas na Renascença, olham com desconfiança para quem chega.

Um bosque imprevisível de torres desafia a chatice moderna
Um bosque imprevisível de torres desafia a chatice moderna
No interior, a esplendida igreja de Nossa Senhora sente-se inteiramente à vontade nesse contexto nobre e belicoso.

Afinal, Nossa Senhora, segundo canta seu Ofício, é “terrível como um exército em ordem de batalha” contra Satanás e seus sequazes.

O castelo como que dá um abraço de filho à Igreja sua mãe, e faz-nos relembrar as comovedoras penitencias de seu fundador.

Pecado sempre houve e sempre haverá: é a triste condição deste vale de lágrimas.

Mas a penitência sincera, onde está?

A lembrança de Foulques e a harmonia profunda entre o Estado e a Igreja que encontramos exemplificada na arquitetura de Montreuil-Bellay oferecem um ponto de equilíbrio para os desterrados filhos de Eva.




GLÓRIA CRUZADAS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O castelo, a coragem e o exemplo de Jesus Cristo

Castel Sforzesco, Milão, Itália
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O medieval encontrava o exemplo perfeito da coragem contemplando Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras.

Jesus Cristo é o protótipo de heroísmo.

Ele, no Horto das Oliveiras, não teve nenhuma atitude de estourado, pois isto seria incompatível com sua santidade infinita.

Ele mediu toda a tristeza das dores que Ele ia sofrer. Chegou a ter tanto medo dessas dores que suou sangue.

Mas apesar disto, como era dever dEle enfrentar aquelas dores, para cumprir a missão que o Padre Eterno lhe deu, Ele enfrentou tudo, levou a Cruz até o alto do Calvário e aí se deixou crucificar e morreu. Havia um ato deliberado da vontade dentro disso.

O cavaleiro cristão da Idade Média tinha eminentemente esta concepção da coragem. E o castelo era o fundo de quadro onde devia se exercer a coragem.

Ou servir de ponto de partida e referência constante de seus atos de heroísmo inclusive em terras longínquas. Como na Cruzada.

O cavaleiro tinha também no mais alto grau a noção do perigo.