quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Em torno do castelo se efetivou a promessa divina: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo"

Le Lude, França
Castelo de Le Lude, vale do Loire, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









Desde a “motte” primitiva, não encontraremos no castelo nada que lembre príncipes românticos nem torvos tiranos.

Há apenas, porém no mais alto grau, o ambiente para uma vida austera, temperante e cheia de espírito de sacrifício.

Através dos séculos, enquanto o castelo evolui — de um lado tornando-se mais poético e cheio de encanto, e de outro mais severo e importante — a vida nele continua no mesmo teor.

Porque na Idade Média os homens viviam com os olhos postos no alto, na eternidade, em Deus, e a existência terrena era para eles apenas uma provação transitória, na qual deveriam ajudar-se mutuamente como membros da mesma família — a família de Deus.

Loches
Castelo de Loches, França
Este é o sentido profundo da base familiar da sociedade feudal: uma cidade onde todos os homens, por mais humildes que fossem, tinham na estrutura social um lugar digno de filhos de Deus.

Onde os que estivessem por cima tutelavam e protegiam os que estivessem por baixo.

Onde reinava entre os homens o espírito de caridade, respeito e união que existe numa família verdadeiramente católica.

Era o oposto, o contrário da civilização socialista, que nivela todos os homens e os deixa despersonalizados, isolados, desamparados ante o Estado todo-poderoso, sem vínculos que os unam, sem o carinho e o amor de que necessitam.

A glória do feudalismo lhe vem de ter sido feito por homens que foram fiéis à graça.

Quando os bárbaros arrasaram tudo, os primeiros senhores feudais poderiam ter-se deixado esmagar; era até normal que ante tal onda de devastação eles fraquejassem, como se deu em tantas circunstâncias análogas através da História.

Mas Deus lhes pediu um supremo esforço para que, sob o influxo da Igreja, da barbárie surgisse uma nova civilização de esplendor incomparável.

Warwick, interior
Castelo de Warwick, Inglaterra
Verdadeiros cristãos, eles — e tantos outros depois — corresponderam à sua vocação.

Reagiram, enfrentaram a adversidade.

Com o suceder das gerações, aplicadas todas no mesmo esforço dirigido e fecundado pela Igreja, construíram a civilização cristã medieval.

O feudalismo foi, acima de tudo, a realização da promessa divina: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

Windsor, pátio interno do castelo real
Windsor, pátio interno do castelo real

(Fonte: “Catolicismo”, nº 57, setembro de 1955)


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quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Vitré: super-castelo sublimado, reflexo de Deus

Para além da realidade, Vitré sugere um trans-castelo que existe numa trans-esfera
Vitré sugere um trans-castelo que existe numa trans-esfera além da realidade
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Vitré é um castelo-palácio fortificado na Bretanha, França.

O primeiro castelo, em pedra, foi construído no século XI pelo Barão Robert I de Vitré sobre um promontório rochoso que domina o vale do Vilaine.

Por volta do ano 1000 foi substituído por um castelo de madeira, até que no século XIII o Barão André III lhe deu a sua forma atual.

O domínio passou em razão de casamentos para a família dos Condes de Laval, que aperfeiçoaram as defesas da fortaleza.

Castelo de Vitré: convida a algo mais que supera seu aspecto material
Castelo de Vitré: convida a algo mais que supera seu aspecto material
As reformas dos séculos XV e XVI visaram ao conforto e à construção de um oratório em 1530.

Naqueles séculos a vida familiar era tão mais importante do que a vida política, que o Parlamento da Bretanha procurou refugiou no edifício dos condes em três ocasiões (1564, 1582 e 1583), quando epidemias de peste flagelaram Rennes, capital da Bretanha.

Entre 1547 e 1605, as famílias Rieux e Coligny, proprietárias do castelo, adotaram o culto protestante e o castelo serviu de bastião para o flagelo huguenote.

Em 1605, o castelo passou a ser propriedade da família católica de La Trémoille.

As torpezas ideológicas da Revolução Francesa transformaram esse símbolo histórico em prisão departamental e depois em quartel militar.

Olhando para esse castelo, as impressões nos encaminham para algo que é ainda mais do que seu aspecto material que entra pelos olhos.

Subconscientemente pensamos em um super-castelo que não existe, mas que em rigor poderia existir. E então gostamos de pensar nesse supercastelo ideal.

Como ele seria?

Esse super-castelo, esse trans-castelo, só existe na nossa mente.

Castelo de Vitré: enche de um gaudio que convida ao Céu
Castelo de Vitré: enche de um gaudio que convida ao Céu
Só na nossa mente? Não!

Existe na mente de muitos outros, e de um modo até muito diferente.

Então, esse trans-castelo tem uma certa existência.

Ele existe numa esfera que não é a terrena. Poderíamos chamá-la de trans-esfera.

E essa trans-esfera pode ser objeto de uma análise do ponto de vista filosófico e teológico.

O que é esta trans-esfera dos castelos ideais que não existem materialmente?

 Não é uma esfera nova da realidade, mas algo que o espírito humano concebe como um produto do espírito.

Ela existe na inteligência do homem.

Vitré é um exemplo de um prédio material gerado pela Cristandade e que eleva nosso espírito para a consideração dessa trans-esfera.

E essa consideração nos enche de um gaudio do Céu, discreto mas convidativo, quando contemplamos as torres e muralhas de Vitré.





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terça-feira, 7 de setembro de 2021

BURG ELTZ (II): harmonia entre o atarracado e o fantasioso, entre o militar e o aconchegado

Armonia da cultura com a natureza, do criado com o Criador
Luis Dufaur
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No castelo há uma inegável harmonia que vem dos jogos dos torreões e da base, e muito do jogo de proporção entre a secção e a altura.

Nessa proporção o possante aparece delicado.

Depois de ter derrubado as árvores, deitado as garras no chão, e impedido a vegetação de crescer, o castelo ao longo dos séculos ficou ligeiramente sonolento e risonho na boa vizinhança das árvores que venceu.

E as árvores se colocam ao lado dele como junto a um protetor.

Há uma verdadeira coexistência entre o mato e o castelo, e pacífica, de uma coisa que não forma um unum, mas que tem uma junção muito agradável. Não há um choque, mas uma junção muito agradável.

Uma fortaleza com aconchego e doçura
O castelo é uma fortaleza bem dentro do espírito medieval verdadeiro, de quem prefere não combater; tendo de combater, combate com denodo, energia, eficácia, e até alegria.

Ele não é pontudo, ele tem pontinhas e é atarracadão como quem diz: eu aqui estou e daqui ninguém me tira, não venham porque vocês apanham.

O belo, o pulchrum do castelo, é assinalado pela proporção entre as várias janelas, poucas, andares altíssimos, mas muito bem colocadas.

E depois as torres que formam provavelmente um quadrilátero que e ordena a coisa.

Essas janelas são altas e mostram como é difícil entrar no castelo pelo muro. Então entra-se por baixo. É uma necessidade de defesa.

Pátio interior, local de passagem e encontro na vida quotidiana
Pátio interior, local de passagem e encontro na vida quotidiana
Dir-se-ia que o castelo se compraz em passear dentro do mato e ser pequeno em comparação com ele. O que indica ainda mais aquele misto de afabilidade, de espírito acolhedor, etc. É o lado de sua grandeza.

Esses castelos tinham habitualmente em conexão com eles uma vila, que às vezes era dentro, às vezes era fora.

Às vezes algumas vilas originavam também aldeias que se espalhavam como os colonos brasileiros nas fazendas.

E essas aldeias todas vinham à missa ao domingo na capela do castelo.

Quando se casava o castelão eles vinham todos assistir e entravam com flores e cantando; nos dias de santo também tinham festas comuns.

Quer dizer, o castelo era a culminância, o lugar de encontro de todo mundo mais miúdo, mais baixo.

Bem entendido, do vigário, que quando não morava no castelo morava junto a uma igrejinha na paróquia, mas que era o hóspede de honra.

A população na Idade Média já era bem densa e o número dos castelos era grande. E os castelões tinham uns com os outros a mesma relação que tem, por exemplo, os fazendeiros uns com os outros.

Outro aspecto do pátio interior
Outro aspecto do pátio interior
De maneira que moram isolados porque suas casas são distantes.

Mas são muito relacionados com toda a redondeza.

Então, por exemplo, as moças da família do senhor feudal casavam nos feudos vizinhos.

A senhora feudal era ela mesma de outro feudo vizinho.

Era, portanto, um contínuo viajar, para aniversário, convidados, contato social muito elevado, que permitia contato dos populares também.

Cada castelão vinha com cinco ou seis, dez escoltas que também se hospedaram no castelo do outro e então conversavam.

E o regime de diz-que-diz, fala-fala era bastante intenso.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 5/7/1976. Texto sem revisão do autor.)


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