terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Os castelos hoje e a missão da nobreza

Wissekerke, Belgica
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Um outro fator de decadência dos castelos foi a perda de convicções na família nobre com respeito a sua missão histórica, ligada visceralmente à religião católica, a monarquia e a oposição aos fatores de desagregação moral e igualitários do mundo moderno.

Escreveu a propósito o jornalista Jean d’Ormesson, nascido e criado num castelo ele próprio:

A segurança que me envolvia inteiramente estava longe de ser a segurança social, resultante de um acordo entre homens. Eu estava literalmente entre as mãos de Deus.

Ele não estava morto e velava sobre mim e portanto nada podia acontecer-me, a não ser peripécias sem sérias conseqüências. Poderia morrer, naturalmente. E então?

O mérito e o talento não entravam em nosso sistema familiar, mas a morte entrava ‒ e muito bem ‒ pois os mortos exerciam na família um papel mais importante do que os vivos. Alem do mais, éramos cristãos.



Parece-me que naqueles tempos a morte nos causava menos horror do que hoje em dia. Ela não nos inquietava tanto. A morte, para um cristão, não é a finalidade da vida?

É com essa concepção, suponho, que o velho Eléazar partira para o Oriente, com uma cruz no peito; que nós nos tínhamos feito matar pelo rei e pelo papa nos campos de batalha ‒ lançado nossas cabeças, vazias de idéias mas carregadas de fé ‒ do pé dos cadafalsos.

Hargimont, Belgica
E com essa mesma concepção que meus tios reacionários e meus primos monarquistas encontraram a morte na África e na Ásia para maior glória de uma república detestada.

A alegria que tomava conta de mim ao contemplar os jardineiros varrer o pátio de château ou M. Machavoine em seu afã de dar corda nos relógios ou ao ler o jornal matutino ou L'Illustration que Antonin Magne ganhava o Tour de France, era uma alegria mística.

Os grandes acontecimentos despertavam em meu avô um suspiro: “Que época!”, pois ele via que os homens punham areia nas engrenagens de Deus.

Quanto aos pequenos acontecimentos, via-se que Deus prosseguia com seu plano. Deus abandonava a seu destino terrível os Lugares Santos, Jerusalém, Moscou, Constantinopla, Baden-Baden, Dauville, Paris e talvez até mesmo Roma cegada pelo modernismo.

Mas ele ainda cuidava bem de nosso château, dos jardineiros e seus jardins, dos relojoeiros e seus relógios.

Essa felicidade tão calma, essa certeza tão sólida era entretanto um pouco triste.

Castelo Kasteel de Haar, Utrecht, Holanda
Castelo Kasteel de Haar, Utrecht, Holanda
Quando me despertava, ninguém me sussurrava o que o valet de chambre do outro Saint-Simon lhe dizia: “Despertai, Monsieur le comte, pois tendes grandes coisas a fazer”.

Mas de que grandes aventuras poderíamos nós sonhar, visto que nossos antepassados e Deus tinham se encarregado de tudo?

Só tínhamos uma coisa a fazer: perturbar o menos possível o que restava dos tempos antigos. Mal ousávamos ler, falar, respirar, escutar.

Quem sabe se ao mexer não romperíamos mais um pouco o equilíbrio, hoje tão frágil em razão das más idéias que cresciam como urtigas?

Tratava-se de não se mexer, de não tocar em nada, tapar os ouvidos e os olhos, vigiar todos os cantos para salvaguardar a santa imobilidade da verdade, do belo e do bem.

(Fonte: Jean d'Ormesson, “Au plaisir de Dieu”, Ed. Gallimard, 1980, 626 páginas.)



GLÓRIA CRUZADAS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

2 comentários:

  1. Muito obrigada.
    Deus o abençoe!
    Saudações de Portugal

    ResponderExcluir
  2. Obrigado por tao belas imagens é como conhecer ao vivo.

    ResponderExcluir

Obrigado pelo comentário! Escreva sempre. Este blog se reserva o direito de moderação dos comentários de acordo com sua idoneidade e teor. Este blog não faz seus os comentários e opiniões dos comentaristas. Não serão publicados comentários que contenham linguagem vulgar ou desrespeitosa.