terça-feira, 23 de julho de 2013

Montreuil-Bellay: equilíbrio de belicosidade, beleza e … penitência!

Posto chave para um belicoso, pecador e penitente senhor feudal
Posto chave para um belicoso, pecador e penitente senhor feudal
O castelo de Montreuil-Bellay é uma das mais vastas construções medievais hoje subsistentes, embora muito reformado durante os séculos.

Ele se espraia com ufania no coração da cidade forte – quer dizer rodeada de muralhas – que leva seu mesmo nome.

Na origem do castelo encontramos um homem muito característico dos primeiros séculos medievais: Foulques Nerra (965/970-1040), duque d’Anjou.

Ele foi um personagem de temperamento violento e de uma energia pouco comum. Nele ainda fervia o sangue dos bárbaros não há muito batizados.

Passou para a história como “um dos batalhadores mais agitados da Idade Média”, segundo o historiador Achille Luchaire.

Fazendo jus ao próximo sangue bárbaro, Foulques foi cruel. Mas aqui encontramos uma diferença com o bandido moderno.

Foulques tinha também um coração amante e um enlevo de criança pela pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. E isso fez a diferença.

Já foi escrito que “seus remorsos estavam à altura de seus crimes”.


A sacralidade penetra a intimidade, trazendo a paz de Deus ao lar
A sacralidade penetra a intimidade, trazendo a paz de Deus ao lar
Enquanto o bandido moderno – e muitas vezes o não-bandido moderno – ostentam uma frieza assustadora, inumana até, diante do crime ostensivo ou dissimulado, Foulques chorava sincera e profundamente seus pecados.

Entre castelos para suas guerras e abadias para purgar suas ofensas a Deus, ele construiu por volta de cem prédios históricos, entre os quais o castelo de Montreuil-Bellay.

Talvez Foulques seja o personagem a quem o vale do Loire mais deve castelos e abadias.

Mais. Peregrinou três vezes à Terra Santa (em 1002, 1006 e 1038), em reparação pelas suas más ações.

Em sua última romaria a Jerusalém, dirigiu-se com o dorso nu até o Santo Sepulcro, enquanto dois de seus servidores, por ordem sua, flagelavam-no e bradavam: “Senhor, recebei o péssimo Foulques, conde d’Anjou, que Te traiu e renegou. Olha para sua alma arrependida, ó Senhor Jesus!”

Após inúmeras guerras, ereção de castelos e abadias, Foulques se extinguiu na paz de Deus na cidade de Metz, na França, voltando da romaria penitencial da Terra Santa que acabamos de mencionar.

Um dos raros castelos medievais que conservaram todas suas torres
Um dos raros castelos medievais que conservaram todas suas torres
Foi ele quem ordenou construir a primeira cidadela do que seria o castelo de Montreuil-Bellay sobre um outeiro romano, cuja defesa confiou a seu vassalo Giraud Bellay, de onde lhe vem o nome.

A família Bellay foi de uma fidelidade exemplar aos reis da França. Por isso, os reis Felipe-Augusto e Luis VIII, avô e pai respectivamente de São Luis IX, instalaram de passagem sua Corte no castelo, nos anos de 1208 e 1244.

Durante a guerra dos Cem Anos o castelo foi herdado sucessivamente pelas casas de Melun, Tancarville e Harcourt, esta descendente de antigos vikings.

Nesse período belicoso o castelo foi aumentado com diversas torres, além de 650 metros de muralhas e 13 torres defensivas, que vieram somar-se às enormes torres redondas e ponte levadiça.

No século XV, sua expansão – carregada de arte, mas de um desmedido desejo do gozo da vida decorrente da Renascença – promoveu uma reforma da poderosa fortaleza.

Muitas janelas foram abertas nos muros, e novas salas, salões de diversos tipos, quartos, salas de jantar e uma escadaria monumental foram introduzidos.

Em muitos castelos, nobres famílias cultuam um passado cheio de cristianismo
Em muitos castelos, nobres famílias cultuam o passado cristão
Além do mais, construiu-se a igreja da Collégiale Notre-Dame, dotada de instalações especiais para os cônegos que ali iam rezar o Oficio.

Todo esse passado heroico e essencialmente católico fizeram de Montreuil-Bellay um símbolo da fidelidade a Deus, ao rei e ao catolicismo.

Esse aspecto foi sublinhado por um fato que encolerizou os inimigos da Igreja e do trono. Durante a Revolução Francesa, o proprietário do castelo, Jean-Bretagne de La Trémoille, permaneceu fiel ao rei legítimo Luiz XVI.

Enfurecidos, os líderes revolucionários confiscaram o castelo e o transformaram numa prisão para mulheres monarquistas.

Após a tempestade revolucionária, por via de casamento, o castelo passou a ser propriedade da nobre família de Grandmaison, que até hoje fornece prefeitos para a cidade e algum senador para a França.

É preciso uma visão aérea para abarcar a enorme dimensão da fortaleza.

Mas não é só dimensão.

Montreuil-Bellay é um universo original que nos arranca da banalidade quotidiana. A surpreendente proliferação de torres – esguias e delicadas umas, massivas e atarracadas outras – desconcerta o visitante moderno, acostumado a prédios retangulares sem nenhum destaque.

E, desde o topo das torres, algumas janelas, talvez acrescentadas na Renascença, olham com desconfiança para quem chega.

Um bosque imprevisível de torres desafia a chatice moderna
Um bosque imprevisível de torres desafia a chatice moderna
No interior, a esplendida igreja de Nossa Senhora sente-se inteiramente à vontade nesse contexto nobre e belicoso.

Afinal, Nossa Senhora, segundo canta seu Ofício, é “terrível como um exército em ordem de batalha” contra Satanás e seus sequazes.

O castelo como que dá um abraço de filho à Igreja sua mãe, e faz-nos relembrar as comovedoras penitencias de seu fundador.

Pecado sempre houve e sempre haverá: é a triste condição deste vale de lágrimas.

Mas a penitência sincera, onde está?

A lembrança de Foulques e a harmonia profunda entre o Estado e a Igreja que encontramos exemplificada na arquitetura de Montreuil-Bellay oferecem um ponto de equilíbrio para os desterrados filhos de Eva.




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Um comentário:

  1. achei muito lindo,e fico emocionado e estonteante em saber que pertence a familia Grandmaison,sinto muita emoção em saber que tenho uma linhagem de nobres,pois moro no Rio de Laneiro,Brasil,curti muito,obrigado.

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